A polêmica “pílula do exercício”

A polêmica “pílula do exercício”SYDNEY, AUSTRÁLIAE se os cientistas desenvolvessem uma “pílula do exercício”, um remédio capaz de proporcionar ao corpo e a mente os mesmos benefícios da atividade física, sem você precisar suar na academia? Cientistas estão desenvolvendo uma droga que pode reproduzir as mudanças moleculares que acontecem no corpo após a atividade física.
Pesquisadores das universidades de Sydney, na Austrália, e Copenhague, na Dinamarca, anunciaram que estão desenvolvendo uma molécula capaz de imitar os efeitos da atividade física nos músculos. Eles examinaram as mudanças ocorridas no músculo esquelético de 4 homens saudáveis antes e depois de exercício físico de alta intensidade por 10 minutos, e concluíram que a atividade física causou mais de 1000 mudanças moleculares no músculo esquelético dos pacientes. Um exemplo dessas mudanças é o aumento à sensibilidade à insulina e criação de novos vasos sanguíneos.


Há tempos já se sabia que a atividade física causa diversas mudanças bioquímicas no corpo humano, mas essa é a primeira vez que cientistas fornecem um mapa de tais alterações. Essas mudanças, entretanto, são complexas e necessitam de mais estudos para sua total compreensão, mas o Dr. Erik Ritcher diretor do Departamento de Fisiologia Molecular da Universidade de Copenhague, disse em entrevista à BBC Mundo que os resultados poderão guiar outros cientistas a criarem moléculas que reproduzam efeitos semelhantes no corpo humano.

Entretanto, os próprios pesquisadores alertam que essa não será uma “pílula mágica”, e que é impossível que ela reproduza todas as vantagens de uma atividade física. Por exemplo, essa pílula não poderá induzir os efeitos benéficos da liberação de endorfinas, responsáveis pela sensação de bem-estar durante a atividade física. Embora ainda não se saiba quais serão os alvos desse possível medicamento, duas possibilidades são aumentar o fortalecimento muscular e reduzir o colesterol. Além do mais, Jorgen Wojtaszewki, outro pesquisador envolvido no projeto, afirma que essa molécula poderá ser útil para pessoas que não conseguem se exercitar, por alguma deficiência física ou obesidade mórbida.

O desenvolvimento desse medicamento poderá levar anos, tendo de ser submetido a diversos testes clínicos até sua aprovação. O estudo foi publicado na edição de outubro 2015 na revista científica Cell Metabolism.

Aumento do sedentarismo?

O anúncio da tal “pílula do exercício” causou polêmica, uma vez que cientistas acham que esse medicamento poderia tornar a sociedade ainda mais sedentária, algo semelhante ao efeito causado pelas dietas milagrosas.

Médicos, educadores físicos e nutricionistas, entretanto, não aprovam nenhuma substituição à atividade física. Em entrevista à BBC, Jesús María Pérez, gerente do Conselho Geral de Colégios de Profissionais da Educação Física e Esporte (Colef) da Espanha, afirmou que nenhuma pílula poderia substituir todos os efeitos do exercício. Há diversas mudanças no corpo, não apenas nos músculos, mas também na mente de quem se exercita. É improvável que um único medicamento alcance todas as vantagens de uma atividade esportiva, tanto no nível muscular, quanto psicológico.


Em nota à imprensa, as universidades de Sydney e Copenhague anunciaram que a descoberta dessas mudanças bioquímicas ajudam a entender melhor como o corpo se comporta numa atividade esportiva, e é fundamental para futuras investigações fisiológicas.

Apesar das aparentes vantagens dessa possível “pílula do exercício”, é preciso tomar cuidado ao se divulgar essa informação, para que a sociedade não se sinta enganada.

02 de novembro de 2015. Texto escrito por Matheus Malta de Sá (Farmacêutico USP). Fontes: Newsroom Cell Press, BBC.com. Fotos: Fotolia.com

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Observação da redação: este artigo foi modificado em 03.11.2015