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A América Latina devastada pela dengue

Após a pandemia de Covid-19, a América Latina e o Brasil é devastada por numerosos casos de dengue. Segundo um artigo da revista britânica The Economist (edição de 27 de abril de 2024), o aquecimento global nesta região, reforçado este ano pelo fenômeno El Niño, explicaria em grande parte este aumento acentuado das infecções. A dengue é uma doença viral transmitida por um mosquito. A boa notícia é que não há possibilidade de contaminação direta de uma pessoa infectada para outra.

América Latina muito afetada

Em 2023, cerca de 80% dos casos confirmados de dengue ocorreram na América Latina e em seus 670 milhões de habitantes, pouco menos de 10% da população mundial. Desde o início de 2024, a OMS publicou que 82% dos casos notificados de dengue em todo o mundo vieram do Brasil1, o maior e mais populoso país desta região é o mais afetado. O Ministério da Saúde brasileiro relatou que 3,8 milhões de pessoas contraíram dengue este ano, de 1º de janeiro a 23 de abril, ou seja, 1,7% da população do país. A dengue causa até 400 milhões de infecções por ano em todo o mundo, segundo estimativas da OMS 2, mas muitas destas infecções não são de fato documentadas ou são assintomáticas, especialmente no continente africano.

A América Latina devastada pela dengue

Picada durante o dia

A dengue é transmitida pela picada de um mosquito – Aedes aegypti – infectado pelo vírus. O mosquito é diurno, ou seja, pica durante o dia. O mosquito transmite o vírus através da saliva ao picar a pele humana, o vírus então se multiplica no sangue humano. Os sintomas aparecerão em aproximadamente 40 a 50% das pessoas infectadas com o vírus da dengue. Ou seja, 50 a 60% das pessoas picadas por um mosquito portador do vírus não apresentarão sintomas (assintomáticos).

5 sorotipos do vírus

O vírus da dengue possui 5 sorotipos ou cepas: DEN1, DEN2, DEN3, DEN4 e DEN5. Algumas fontes falam de 4 sorotipos. Não é possível ser infectado uma segunda vez com o mesmo sorotipo. Mas uma pessoa pode se infectar com tipos diferentes de sorotipo. A OMS alerta que todos os quatro sorotipos da doença foram detectados no continente americano este ano. Por exemplo, você pode ser infectado pelo DEN1, e em algumas semanas, meses ou anos depois pelo DEN2, 3 ou 4 ou 5. Mas neste exemplo o mesmo paciente não pode ser infectado duas vezes na vida pelo DEN1.
A OMS alerta que quatro sorotipos da doença foram detectados no continente americano este ano3.

Infecção que lembra uma gripe forte – beba muito

O Criasaude.com.br tomou conhecimento de muitas pessoas infectadas com dengue com sintomas semelhantes aos de uma gripe grave, como febre alta, dor de cabeça intensa, dores musculares e diarreia. Os pacientes geralmente ficam na cama por uma semana. Um médico brasileiro explicou ao Criasaude.combr que não há tratamento específico depois que a doença é estabelecida, exceto a prescrição de dipirona (um antipirético) para acalmar certos sintomas, como a febre. O paracetamol também pode ser usado, mas a aspirina (ácido acetilsalicílico) deve ser evitada. O paciente, muitas vezes sem forças por alguns dias, também é incentivado a beber bastante líquido e a descansar bem. Se possível, a pessoa com dengue deve beber 60 ml por kg de peso corporal. Para uma pessoa de 70 kg, isso representa aproximadamente 4 L de água, o que é muito e às vezes demais para pessoas, que devem ser hidratadas em ambiente hospitalar através de soro na veia se não for possível por via oral4.

Toda a América Latina

Nos últimos anos, a dengue também afetou países com climas geralmente mais frios ou mais secos, como o Chile ou o Uruguai, segundo o The Economist. Quando há invernos frios com temperaturas abaixo de 15°C, os mosquitos morrem. Este ano, o número de casos está explodindo na América Latina, com já 5,9 milhões de casos no início de 2024, em comparação com 4,5 milhões em todo o ano de 2023.

5% no hospital

A dengue nem sempre é isenta de consequências, cerca de 5% das pessoas infectadas necessitam de tratamento em ambiente hospitalar. Na verdade, alguns pacientes podem desenvolver uma forma grave da doença chamada dengue severa (antigamente chamada de dengue hemorrágica), que pode ser fatal. Todos os anos, em todo o mundo, cerca de 40.000 pessoas morrem de dengue. Somente em 2024, o estado de São Paulo no Brasil registrou 922 mortes5. Este número aumentou acentuadamente nas últimas décadas, de acordo com o The Economist. No caso da dengue severa encontramos os sintomas da dengue clássica, mas o sangramento ocorre após a febre passar. É necessário ter muita atenção para casos de dengue severa (ou dengue hemorrágica) e por isso consultar imediatamente um médico em caso de dor abdominal intensa, falta de ar ou sangramento espontâneo.

Não apenas o clima

Mesmo que o aquecimento global pareça explicar grande parte do aumento de casos. É importante observar que o planejamento urbano da América Latina com grandes cidades como São Paulo, Buenos Aires, Rio de Janeiro, Cidade do México ou Lima, muitas vezes com grandes subúrbios, como as favelas, não ajuda a reduzir o número de mosquitos. Na verdade, o mosquito prospera muito em águas estagnadas, razão pela qual notamos mais infecções nos subúrbios do que no centro da cidade, que tem menos pontos de água. A água estagnada pode ser encontrada em vasos, potes, buracos na estrada ou jardim, piscinas ou em telhados planos (a água se acumula e pode formar pequenas poças).

Vacinas

Existem diversas vacinas no mercado para prevenir a dengue. Uma delas se chama QDenga®, é indicada para prevenção da dengue em indivíduos a partir de 4 anos. Esta vacina autorizada na América Latina e na União Europeia contém vírus vivos atenuados da dengue 6. Contudo, esta vacina não é produzida em grande escala e não está disponível em toda a América Latina. Há pelo menos mais um outro projeto de vacina que está em estágio avançado de estudo clínico. A vacina Dengvaxia® da Sanofi também está disponível, mas pode ser perigosa para pessoas que nunca tiveram dengue. No Brasil, segundo a Anvisa (agência reguladora), as instruções da bula da vacina Dengvaxia® especificavam (em janeiro de 2022) que a Dengvaxia® deveria ser aplicada em adultos, adolescentes e crianças de 9 a 45 anos já infectados pela dengue e que vivem em áreas endêmicas.

No dia 10 de maio de 2024, a OMS pré-qualificou outra vacina contra a dengue, a TAK-003, fabricada pelo grupo farmacêutico japonês Takeda. Esta vacina reúne componentes enfraquecidos de quatro sorotipos de vírus causador desta patologia. A OMS recomenda seu uso em crianças de 6 a 16 anos em locais com prevalência e disseminação significativas de dengue. A vacina deve ser administrada com duas doses e intervalo de três meses entre elas. Ela agora pode ser utilizada pelas agências da ONU nos seus esforços contra a dengue.

Outros meios de prevenção

Outra forma de prevenção desenvolvida em larga escala, especialmente em Singapura, consiste em injetar uma bactéria chamada wolbachia em ovos de mosquitos, antes de os libertar na natureza. Com esse método, os mosquitos carregam menos o vírus causador da dengue, reduzindo o número de casos de infecção em cerca de 75%. Singapura libera 5 milhões de mosquitos com essas bactérias toda semana. Mas este método é caro, provavelmente demasiado caro para a situação económica da América Latina. Nesta região, a melhor forma de prevenção consiste em alertar a população para nunca ter água parada. As autoridades de saúde realizam frequentemente campanhas de informação gerais e específicas. É particularmente aconselhável colocar areia nos pires dos vasos de plantas, virar as garrafas ao contrário, tampar reservatórios de água e piscinas (ou adicionar cloro) e evitar guardar pneus no exterior.

Artigo atualizado em 4 junho de 2024. Por Xavier Gruffat (farmacêutico). Revisão: Seheno Harinjato (Editor do Criasaude.com.br, responsável pelos infográficos)

5 razões para começar o seu dia com uma água com limão

A água com limão pela manhã ganhou popularidade com a fama de ajudar a digestão, desintoxicar, emagrecer, regular o pH sanguíneo, entre outros benefícios difundidos por celebridades e promotores de saúde online. Esta também é uma prática milenar da medicina chinesa e da medicina indiana.

Mas o que estudos científicos têm a dizer sobre isso? Quais os efeitos comprovados?

Muitos especialistas afirmam que não há comprovação científica para os benefícios atribuídos à água com limão. Embora não existam estudos com seres humanos grandes e conclusivos, há uma variedade de pesquisas com pequenos grupos humanos ou modelos animais (ratos) que indicam alguns benefícios (veja em Referências Bibliográficas). É claro que ainda são necessários estudos maiores, mas já existem dados suficientes, além das evidências das medicinas tradicionais indiana e chinesa, para sugerir que a água com limão, suco de limão ou água morna com limão (como preferir) pode trazer benefícios para a saúde sem causar prejuízos.

Aqui estão os 5 principais benefícios que a água com limão pode trazer:

1. Auxilia a digestão

O ácido desempenha um papel crucial na digestão dos alimentos, e é por isso que nossos estômagos contêm uma quantidade significativa dele. O ácido encontrado nos limões pode ser particularmente benéfico para ajudar a compensar a redução nos níveis de ácido estomacal que geralmente ocorre com o avançar da idade 1.

Além disso, o limão contém polifenóis que favorecem uma microbiota saudável no intestino propiciando uma melhor digestão dos alimentos 2. A água morna com limão pela manhã pode ajudar ainda mais, ela pode potencializar esse efeito, ajudando a aumentar os movimentos peristálticos do esôfago e do intestino3.

5 razões para começar o seu dia com uma água com limão

2. Fortalece o sistema de imunológico

O limão é muito rico em vitamina C, que é um dos antioxidantes naturais que ajudam ao nosso organismo a combater os radicais livres que “atacam” nossas células podendo causar doenças, inclusive câncer. Além disso, o limão possui menos calorias do que outras frutas cítricas como a laranja. Meio limão já é mais que suficiente para a dose diária de vitamina C recomendada. 

3. Ajuda a manter a pele firme

Além de proteger as células da pele contra os radicais livres, a vitamina C também auxilia na produção de colágeno, uma proteína responsável por manter a firmeza da pele4.

4. Previne pedra nos rins

Só quem já teve ou tem pedras nos rins sabe a importância de prevenir sua formação. Por conter citrato, o limão ajuda a diminuir a formação de pedras, além de ser ligeiramente diurético5.

5. Melhora a absorção de ferro

Se você tem dificuldade em obter ferro suficiente em sua dieta ou foi diagnosticada com anemia por deficiência de ferro, é importante consumir bastante vitamina C. Ao consumir água com limão junto com alimentos ricos em ferro, a vitamina C da água com limão ajudará o corpo a absorver melhor esse mineral.

Mas a água com limão pode ajudar a perder peso?

Existem estudos que indicam que os flavonoides cítricos podem ajudar a aumentar o metabolismo, mas ainda com evidências muito fracas. Um estudo pequeno com 30 estudantes com sobrepeso que ingeriram água morna com limão diariamente mostrou redução de peso significativa, mas a metodologia deste estudo não foi bem descrita, podendo haver muitos outros fatores relacionados à perda de peso6. Portanto, ainda não há evidências científicas suficientes para confirmar um efeito da água com limão na perda de peso.

Cuidados

Há preocupações de que o ácido do limão possa prejudicar o esmalte dos dentes, causando sensibilidade. De fato, ácidos podem prejudicar o esmalte do dente, especialmente se você já tiver desgaste do esmalte. Para evitar esse risco, siga algumas dicas:

– Sempre dilua o limão em água (½ limão para 1 copo de água) e evite morder o limão.

– Se já apresenta sensibilidade nos dentes, prefira beber a água com limão utilizando um canudo para minimizar o contato com os dentes.

– Espere uma hora antes de escovar os dentes. Os ácidos amolecem o esmalte e a escovação imediata pode danificá-lo ainda mais.

É importante lembrar que a água com limão não substitui nenhum tratamento e deve ser utilizada como prevenção. Caso note alguma alteração suspeita, não deixe de conversar com a equipe de saúde que lhe acompanha.

Redação
Por Adriana Sumi (farmacêutica), 07.06.2024 (update)

Acne em mulheres adultas: 6 informações importantes de saber

A acne não afeta apenas as adolescentes, muitas mulheres adultas também sofrem deste problema, considerado uma patologia por si só. Às vezes, a acne pode se desenvolver pela primeira vez já na idade adulta1.Essa doença de pele que se manifesta por erupção de espinhas no rosto é sempre causada pelo excesso de sebo, produzido pelas glândulas sebáceas quando estão muito ativas2. O sebo é uma substância oleosa que a pele produz pelas glândulas sebáceas. Essa superprodução leva à obstrução dos poros e, assim, promove o desenvolvimento de bactérias causadoras de acne.

Acne em adultos, ao redor da boca

A acne em mulheres adultas, também conhecida como acne hormonal, pode ser muito semelhante à acne em adolescentes. A acne em mulheres na faixa dos trinta, quarenta e cinquenta anos geralmente está localizada ao redor da boca (região perioral). Embora seja comum pensar que acne adulta afete a área da mandíbula e o queixo3, também é comum no restante do rosto, tórax, ombros e costas.

Acne em mulheres adultas: 6 informações importantes de saber

Aqui estão 6 informações úteis que você deve saber sobre acne em mulheres adultas.

1. Quase metade das mulheres são afetadas nos Estados Unidos

Não existem causas exatas estabelecidas, mas observa-se que a acne adulta afeta mais o Ocidente, ou seja, a Europa e a América do Norte. Segundo a revista americana Prevention de novembro de 2019, aproximadamente 50% das mulheres nos Estados Unidos sofrem de acne entre 20 e 30 anos. Mesmo que não haja uma explicação muito precisa para entender esse fenômeno, sabe-se que muitos fatores como alimentação, estresse pela produção de cortisona, uso de produtos cosméticos, uso de certos medicamentos (lítio, corticosteróides, pílula anticoncepcional, testosterona4), fatores genéticos e a poluição favorecem o aparecimento e a persistência da acne em adultos. Observe também que as mulheres adultas têm maior probabilidade de ter acne após os 20 anos de idade do que os homens.

2. Incidência hormonal

Nas mulheres adultas, a acne pode aparecer principalmente nos dias anteriores à menstruação ou estar ligada ao ciclo menstrual, embora nem sempre seja o caso. Na faixa dos quarenta anos, 26% das mulheres estadunidenses afirmam sofrer de acne. Já na faixa dos cinquenta, 15% apresentam esse problema, prova de que os hormônios podem desempenhar um papel importante. Também é possível que a acne apareça pela primeira vez durante a menopausa ou durante a gravidez, onde uma maior secreção de progesterona e estrogênio causa produção excessiva de sebo.

As flutuações hormonais que acompanham a gravidez podem levar a uma série de alterações corporais, incluindo acne. A acne pode desaparecer à medida que a gravidez avança ou evoluir para acne pós-parto5.

A menopausa provoca uma queda nos níveis de estrogênio e um aumento nos hormônios andrógenos, que estimulam a produção natural de óleo da pele, mais óleo significa mais acne.

3. Alimentos para preferir

Para limitar o aparecimento de acne na idade adulta, é aconselhável preferir alimentos com baixo índice glicêmico (IG), como vegetais, grãos integrais, nozes ou legumes. Da mesma forma, evite bebidas açucaradas, incluindo sucos de frutas com adição de açúcar. As frutas oleaginosas secas, como castanha-do-pará ou pistache, também são ricas em vitamina E e contêm vitaminas A e C e zinco, que ajudam a revitalizar a pele e reduzir o risco de inflamação.

4. Medicamentos (tratamentos), escolha nem sempre fácil

Na maioria dos casos, o tratamento da acne é feito topicamente com produtos de peróxido de benzoíla ou de ácido salicílico. O adapaleno (um composto do tipo retinóide) e o ácido azelaico (um antiacne e queratolítico que absorve o excesso de oleosidade) podem ajudar a limpar a pele com tendência a acne6. Um limpador suave com ácido glicólico, um esfoliante leve que aumenta a renovação das células da pele sem ressecá-la, é particularmente interessante para as mulheres após a menopausa.

Em casos de acne grave, a equipe médica pode prescrever isotretinoína, mas este é um medicamento absolutamente contraindicado em caso de gravidez, devido aos graves riscos de malformações para o feto. A isotretinoína é frequentemente prescrita para cistos ou nódulos.

Segundo estudo publicado em fevereiro de 2019 na revista científica Dermatologic Clinics (DOI: 10.1016/j.det.2018.12.001), o medicamento oral espironolactona, que é basicamente um hipotensor, seria particularmente eficaz em mulheres adultas que sofrem de acne. Mas, em geral, as opções de tratamento que funcionaram bem na adolescência podem não funcionar tão bem em mulheres adultas com acne, devido a fatores desencadeantes como desequilíbrio hormonal, estresse e alimentação7. A espironolactona reduz a acne em 50 a 100 por cento, de acordo com a American Academy of Dermatology. A espironolactona não é um medicamento especialmente registrado para acne, mas muitas pessoas experimentam melhora em sua acne ao tomar este medicamento8.

5. Acne e tabaco

Muitos estudos mostram a ligação entre tabaco e acne. Pessoas fumantes seriam, portanto, mais sensíveis a ela do que aquelas que não fumam. Além disso, seria mais difícil tratar fumantes com medicamentos, pois o tabaco tende a engrossar a camada superficial da epiderme. Em caso de infecção, a cicatrização também é mais lenta. Na verdade, a nicotina poderia retardar o transporte de moléculas de reparação, limitando o fluxo sanguíneo.

6. Ações preventivas

Existem certas precauções a serem tomadas para limitar o aparecimento de acne. A primeira ação preventiva a adotar é nunca furar as espinhas. Isto aumenta o risco do surgimento de outras espinhas e de deixar cicatrizes permanentes e desagradáveis. O melhor é tocar o mínimo possível, simplesmente limpar e aplicar o tratamento recomendado nas áreas afetadas. A exposição ao sol também deve ser evitada tanto quanto possível sem o uso de proteção solar adequada.

Se você sofre de acne na idade adulta e isso o incomoda, consulte um dermatologista.

Artigo atualizado em 23 de maio de 2024. Pela redação do Criasaude.com.br (supervisão científica de Xavier Gruffat, farmacêutico). Créditos fotográficos: Fotolia.com, Adobe Stock, Pixabay, Criasaude.com.br (Pharmanetis Sàrl). Infográfico: Pharmanetis Sàrl.

A que horas deve-se tomar os seus remédios? Guia prático

Os analgésicos opiáceos matam mais do que a cocaína e a heroínaA maioria dos medicamentos (remédios, drogas) é consumida diariamente na mesma hora. Entretanto, seria preferível tomá-los pela manhã, à noite, antes de ir dormir, de jejum ou após a refeição? Apanhado geral de várias classes de medicamentos à venda sem necessidade de receita médica ou mediante prescrição médica.
Antes de entrar na minúcia, realcemos que sempre é importante ler com atenção as informações contidas na embalagem e na bula, assim como consultar o seu médico ou farmacêutico. Efetivamente, pode haver exceções em função das particularidades de cada indivíduo ou medicamento.

Por que existem diferenças no horário de tomar remédios?
A administração de determinados medicamentos em um momento específico do dia pode se mostrar mais recomendada que a adoção de outro horário. Este estado de coisas deve-se principalmente ao ciclo circadiano, responsável pela regulagem do organismo, especialmente ao nível dos hormônios e do sono. Tomar um medicamento em um momento bem específico do dia possibilita, por exemplo, aumentar o seu efeito ou minimizar alguns efeitos colaterais, tal como ocorre com os antidepressivos (ler a seguir). A ciência que estuda estes fenômenos denomina-se cronobiologia ou cronoterapia.

Corticoides. Pela manhã
Como a cortisona é predominantemente produzida pelo organismo pela manhã, é preferível igualmente tomar corticoides (por exemplo, a cortisona) neste momento do dia. A consequência da administração nestas condições é um equilíbrio em relação ao ciclo circadiano natural. Salvo exceção médica, aconselha tomar aproximadamente 2 terços da dose de corticoide pela manhã, após o café da manhã, e o restante (1 terço) no início da tarde.

Antidepressivos. Pela manhã (com algumas exceções)
Em geral, o médico que prescreve antidepressivos recomenda tomá-los pela manhã, sobretudo, no tocante aos inibidores seletivos da recaptação de serotonina (tais como, por exemplo: fluoxetina, citalopram). Estes medicamentos podem desencadear efeitos colaterais com perturbação do sono. Mas a mirtazapina, um antidepressivo atípico, deve ser tomada à noite por causa de seu forte efeito calmante (sonolência).

MineraisBisfosfonatos. Pela manhã em jejum
Esses medicamentos, muito utilizados no tratamento e na prevenção da osteoporose, devem ser tomados pela manhã, em jejum. Atenção, esses medicamentos são com frequência tomados uma vez por semana e não cotidiana ou em várias vezes ao dia, como a maioria dos medicamentos. Solicite auxílio junto ao seu médico ou farmacêutico para informações mais detalhadas. É preciso saber que os bisfosfonatos são frequentemente mal absorvidos ao nível gastrointestinal. Esta é a razão pela qual eles devem ser tomados em jejum. Aconselha-se com frequência ingeri-los uma hora antes da refeição.

Hormônio da tireóide. Pela manhã
É aconselhável tomar levotiroxina, um hormônio da tireóide, pela manhã. Além disso, a levotiroxina deve ser tomada com o estômago vazio (ex. de manhã 30 minutos antes do café da manhã), pois isso resulta em uma biodisponibilidade significativamente melhor, conforme observado em outubro de 2019 pela revista científica da Universidade de Basel (Suíça) [email protected].

AlergiaAntialérgicos. À noite
Recomenda-se tomar os antialérgicos e, sobretudo, os anti-histamínicos, à noite. Esses medicamentos podem levar à sonolência, o que aumenta o risco de acidentes. Uma administração noturna, por exemplo, para combater a renite alérgica, possibilita igualmente fortalecer os efeitos do medicamento no início da manhã. Com efeito, os sintomas da renite alérgica são mais intensos pela manhã.  É preciso saber que o efeito mais intenso destes antialérgicos é com frequência obtido entre 8 e 12 horas após a sua administração.

Aspirina. À noite
Para evitar eventuais efeitos colaterais afetando o trato digestivo, a aspirina deve ser preferencialmente ingerida à noite e, se possível no momento da refeição.

Hormônios de crescimento. À noite
Como este hormônio é natural e principalmente produzido durante a noite, a administração noturna é a mais indicada. O objetivo é similar ao caso dos corticóides (ver acima), ou seja, alcançar uma aproximação do ciclo circadiano natural.

Medicamentos para hipertensão (hipotensivas). À noite ou tanto faz
Questionamento
Um estudo apresentado no congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia (sigla em inglês: ESC) em agosto de 2022 em Barcelona estima que o horário de tomar anti-hipertensivos (hipotensores) não tem influência na sua eficácia. Em agosto de 2022, o estudo ainda não havia sido publicado em uma revista científica, mas como é de praxe com apresentação em congresso, a publicação deve seguir nos próximos meses. Este estudo randomizado levou em consideração mais de 20.000 pacientes, metade tomando o(s) medicamento(s) à noite e o outra pela manhã. O estudo mostrou claramente que ataques cardíacos (infarto do miocárdio), acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e mortes vasculares ocorreram de forma semelhante, independentemente do horário de administração (por exemplo, manhã ou noite). Pessoas com pressão alta devem tomar seus medicamentos regulares para pressão arterial em uma hora do dia que seja conveniente para elas e que minimize os efeitos adversos, de acordo com o comunicado de imprensa do estudo datado de 26 de agosto de 2022.

Estatinas. À noite, ante de se deitar
Muito utilizados pela população, aconselha-se a administração desses medicamentos à noite, antes de o indivíduo ir se deitar. A razão deriva do fato de o fígado produzir muito mais colesterol neste período que durante a tarde. Sabe-se que as estatinas possibilitam reduzir o colesterol ruim (LDL) no sangue.

Analgésicos. À noite, ante de se deitar
Alguns medicamentos para a dor, como a codeína, têm um efeito indutor do sono, pelo que faz sentido tomá-los à noite, antes de ir dormir, para evitar sonolência durante o dia.

Tratamento tuberculoseAntibióticos. Variável
Determinadas classes de antibióticos, tais como os macrólidos, a fosfomicina ou a cefalexina são melhor absorvidos quando administrados em momentos distantes de uma refeição. Em contrapartida, uma molécula como a amoxicilina deve preferencialmente ser ingerida no momento da refeição. Em relação aos antibióticos, sempre consulte o seu médico ou farmacêutico.

Antiácidos (mas não inibidores da bomba de prótons – veja abaixo). Após a refeição, se possível à noite
Os antiácidos são frequentemente administrados duas horas após a refeição. Em geral, os medicamentos contra as úlceras são tomados uma hora após a refeição.
Tomar esses medicamentos após a refeição ou logo antes de ir dormir é uma boa ideia, pois o estômago produz um volume considerável de ácidos gástricos entre às 22:00 e às 2:00 da madrugada.
Atenção, os antiácidos podem apresentar interações com outros medicamentos, tais como o ferro e determinados antibióticos (por exemplo, a tetraciclina). É preciso deixar um intervalo de no mínimo duas horas entre a administração de antiácidos e aquela de outros medicamentos com risco de interação, como o ferro.

Inibidores da bomba de prótons (IBP). 30 minutos a 1 hora antes das refeições, pela manhã
O melhor momento para tomar IBP, como o omeprazol, para obter a inibição máxima das bombas de prótons é pela manhã, 30 minutos a 1 hora antes de uma refeição, para que a concentração do IBP no sangue seja a mais alta quando as bombas estiverem ativas. É importante comer depois de tomar um IBP.

Anti-inflamatórios. Em geral no momento da refeição
Medicamentos anti-inflamatórios não esteroides (AINS) muito utilizados, tais como o ibuprofeno, são com frequência melhor tolerados quando ingeridos no momento de uma refeição. Os AINS podem causar distúrbios digestivos como as úlceras.

Por Xavier Gruffat (farmacêutico). Artigo atualizado em 04.05.2024. Fotos: Adobe & Criasaude.com.br

Entenda melhor as estatinas com o Prof. Nicolas Rodondi

As estatinas são uma classe de medicamentos com efeito hipolipemiante que reduz o nível de LDL (lipoproteína de baixa densidade) ou “colesterol ruim”. As estatinas são geralmente prescritas para pessoas com histórico de problemas cardíacos, como infarto do miocárdio ou acidente vascular cerebral (AVC). O Criasaude.com.br (e o Creapharma.ch) pôde entrevistar um dos maiores especialistas em estatinas da Suíça, o Prof. Nicolas Rodondi (foto abaixo) da Universidade de Berna. Ele também é médico-chefe do Inselspital em Berna.

Entenda melhor as estatinas com o Prof. Nicolas Rodondi

Criasaude.com.br (Xavier Gruffat, farmacêutico) – O que são as estatinas e quando elas são utilizadas?
Prof. Nicolas Rodondi – As estatinas são medicamentos que reduzem o nível de “colesterol ruim” (LDL) no sangue. É importante saber que as estatinas diminuem muito pouco os triglicerídeos e outros lipídios, além de aumentar apenas ligeiramente o “colesterol bom” (HDL) no sangue.

No jargão médico, falamos de prevenção primária e prevenção secundária. Você pode nos explicar como essa diferença é fundamental?
Vamos começar com a prevenção secundária. O termo “secundário” significa que a pessoa ou paciente já teve problemas cardiovasculares, como um infarto do miocárdio (ataque cardíaco), um acidente vascular cerebral (AVC) ou obstrução de artérias nas pernas que necessitem intervenção. Para a prevenção primária, são considerados todos os outros pacientes. Ou seja, aqueles que não tiveram um evento cardiovascular anteriormente. Por exemplo, uma pessoa com níveis elevados de LDL, mas que nunca teve um evento cardiovascular, está no grupo de prevenção primária.

Há alguns anos (2013), houve uma grande polêmica, principalmente na França, com o livro do Prof. Philippe Even: “A verdade sobre o colesterol”. Segundo esse autor, na maioria dos casos, diminuir o LDL não reduz o risco cardiovascular, pois o colesterol e especialmente o LDL geralmente não são responsáveis pela formação de ateromas (placas) nas artérias. Mas você pensa o contrário ou, pelo menos, de forma mais sutil, como muitos de seus colegas, que as estatinas são úteis em muitas situações. Você pode nos explicar?
Sim, a maioria dos especialistas concorda, com base em numerosos estudos clínicos, que é benéfico tomar estatinas durante a prevenção secundária, ou seja, depois de uma pessoa ter tido um ou mais eventos cardiovasculares. A redução do risco de novos eventos como infarto do miocárdio ou acidente vascular cerebral, ou seja, recorrências, é da ordem de aproximadamente 30% na prevenção secundária.

Os estudos são menos claros na prevenção primária. Existem outros fatores que impactam negativamente a saúde cardiovascular, como o tabagismo ou certas doenças, incluindo doenças genéticas que envolvem colesterol elevado. Mas, em geral, quando existem outros fatores de risco importantes, especialmente se existirem vários, as estatinas podem ser úteis. É mais complicado decidir se deve tomar ou interromper as estatinas com riscos moderados ou baixos na prevenção primária, especialmente nos idosos.

É por isso que desenvolvemos um estudo que procura compreender melhor o potencial benefício das estatinas na prevenção primária em idosos. Este estudo chama-se STREAM e procura esclarecer os potenciais benefícios e efeitos negativos das estatinas em idosos. Pessoas com mais de 70 anos que tomam estatinas podem registar-se no site do estudo www.statin-stream.ch, que está acontecendo em 25 centros em toda a Suíça e envolve mais de 200 médicos da família, bem como em um centro na Holanda e um em Bordéus (França). O estudo é um dos poucos estudos independentes da indústria relacionados com esses tratamentos, com financiamento do Fundo Nacional de Pesquisa Suíço.

Até que idade é benéfico tomar estatinas? Você falou sobre isso em uma apresentação no congresso médico suíço, o Quadrimed,  em janeiro de 2024…
Para prevenir doenças secundárias (caso já tenha tido um ataque cardíaco ou um AVC), sendo pessoas até 82 anos, é aconselhável tomar estatinas. Estou mencionando os 82 anos porque estudos incluíram pessoas até essa idade. Pacientes de 82 anos provavelmente continuam a se beneficiar das estatinas tanto quanto pacientes mais jovens de 60 ou 70 anos. Após os 82 anos, não sabemos ao certo devido à falta de estudos. Mas mesmo que não haja estudos, isso não significa que o paciente deva parar as estatinas aos 83 anos, pois não há razão para pensar que as estatinas sejam menos protetoras.

Para prevenção primária (sem eventos cardiovasculares no passado), os estudos mostram, como mencionado anteriormente, que até os 70 anos as pessoas com alto risco, como fumantes ou com certas doenças genéticas, se beneficiam ao tomar estatinas, embora menos do que na prevenção secundária. A partir dos 70 anos, os estudos não conseguiram demonstrar que as estatinas evitam um primeiro acidente ou um evento cardiovascular, como um infarto do miocárdio ou AVC. Nessas pesquisas, as pessoas começaram o tratamento aos 70 anos ou mais. No entanto, isso poderia ser diferente se a pessoa tivesse começado o tratamento com estatinas, por exemplo, 20 anos antes (aos 50 anos). A situação é diferente aqui, pois pode-se imaginar que a pessoa tenha sido protegida pelo uso de estatinas por muitos anos. No entanto, um pequeno estudo americano (cerca de 380 pessoas) mostrou que aqueles que interromperam as estatinas aos 70 anos ou mais, para prevenção primária, não tiveram mais eventos cardiovasculares (como infartos) do que aqueles que continuaram com as estatinas. Um ponto importante é que aqueles que pararam as estatinas tiveram um leve aumento na qualidade de vida. Isso porque sabemos que de 10 a 20% das pessoas que tomam estatinas têm efeitos colaterais musculares (falaremos mais sobre isso posteriormente na entrevista). Assim, pode-se imaginar uma diminuição da mobilidade em idosos que tomam estatinas. No entanto, são necessários estudos maiores, como o nosso estudo mencionado acima.

Sabemos que interromper as estatinas sem uma decisão médica pode ser arriscado. Você também já observou em sua prática diária interrupções no uso de estatinas sem consulta médica?
É importante distinguir entre prevenção primária e prevenção secundária. Na prevenção secundária, como mencionado, não se deve interromper o uso. Na prevenção primária é mais complicado, um estudo dinamarquês de coorte retrospectiva (10.1001/jamanetworkopen.2021.36802), baseado em dados administrativos, mostrou um aumento de risco, mas não é um estudo de alta qualidade devido a múltiplos vieses. Por exemplo, podemos imaginar que um paciente tenha um câncer em estágio avançado (com metástases) e o médico decida interromper as estatinas. O falecimento do paciente não está relacionado à interrupção das estatinas, mas sim ao câncer. Os resultados desse estudo dinamarquês sugerem que serão necessárias evidências sólidas provenientes de ensaios clínicos randomizados.

Sabemos por que as pessoas param de tomar estatinas?
Acho que muitas vezes está relacionado a efeitos colaterais musculares, dores musculares. Talvez também porque não veem nenhum benefício direto na redução do nível de LDL. Esses efeitos colaterais nos músculos podem afetar de 10 a 20% dos pacientes, provavelmente em torno de 10%. Porque também existem os chamados efeitos “nocebo”. O paciente sabe e teme que as estatinas causem efeitos colaterais musculares. Os estudos ditos cross-over (cruzados) demonstraram que por vezes são relatados efeitos colaterais musculares mesmo com um placebo (o paciente não sabe se está recebendo uma estatina ou um placebo).

Em relação aos efeitos colaterais musculares, na minha opinião eles são reais. Existem estudos que mostram alterações nas fibras musculares, por exemplo trabalhos feitos com ressonância magnética.

É possível diminuir o LDL através da alimentação e sem estatinas ou muitas vezes é difícil?
É possível, mas muitas vezes você só consegue diminuir o nível de LDL em 5 a 10% quando muda sua alimentação. Isto não é enorme, mas o impacto em eventos cardiovasculares futuros através da mudança na alimentação é muito significativo, da ordem de 30%, muito mais do que a redução bastante modesta do LDL. Ou seja, adotar uma alimentação saudável como a dieta mediterrânea pode reduzir em 30% o risco de sofrer eventos cardiovasculares como infarto do miocárdio ou acidente vascular cerebral no futuro. Provavelmente o efeito de uma melhor alimentação está ligada, entre outras coisas, à redução da inflamação. Existem também alguns pacientes que, ao alterarem a sua alimentação, especialmente se a alimentação básica for muito pobre (junk food), podem diminuir o seu nível de LDL em até 30%, mas isto é pouco frequente. Além disso, melhorar a alimentação pode ter um efeito muito significativo nos triglicerídeos.

No entanto, observe que para um idoso com mais de 70 anos, mudar radicalmente a alimentação – nomeadamente adotar uma nova dieta – nem sempre é o ideal porque pode, por exemplo, afetar a massa muscular. Perder músculos pode aumentar o risco de queda.

Você está realizando um estudo na Suíça sobre a interrupção do uso de estatinas. Poderia nos contar mais? Por que você lançou este estudo?
Como já mencionado, este estudo STREAM ajudará a esclarecer o benefício das estatinas em pessoas idosas. A ideia é realmente conhecer a utilidade das estatinas em pessoas mais velhas na prevenção primária, portanto em pessoas que não tiveram problemas cardiovasculares como infarto do miocárdio. Queremos ver o impacto das estatinas na qualidade de vida, nos músculos e nas quedas. Outro objetivo é ajudar as equipes médicas responsáveis pelo tratamento a tomar a decisão certa ao prescrever estatinas. Por um lado, temos médicos que são contra as estatinas em idosos, por outro, há uma real falta de estudos de qualidade que deem clareza. Existe também um comitê de ética internacional para garantir que o estudo possa ser interrompido a qualquer momento em caso de risco, tanto no grupo das estatinas quanto no grupo que não as toma. Por exemplo, se percebermos que as estatinas têm um grande efeito na prevenção primária de eventos cardiovasculares, deverá ser possível interromper o estudo.

Qual é o risco de sofrer uma hemorragia cerebral quando se toma estatinas?
Há muitos anos que se discute o risco de hemorragia cerebral relacionado com as estatinas. Ao reunir e coletar dados de todos os estudos randomizados, conseguimos demonstrar em um 1que havia um pequeno risco de hemorragia cerebral. Felizmente este risco é relativamente raro, afetando um em cada 3.000 pacientes ao longo de sete anos de tratamento. Dado que o benefício na maioria dos pacientes é muito maior, isso não é motivo para parar, pelo menos sem discutir o assunto com o seu médico. Por outro lado, é mais um argumento para esclarecer o benefício em pacientes para os quais os dados não são claros, como nos idosos em prevenção primária que participam do nosso estudo mencionado acima.

O Criasaude.com.br agradece o professor Nicolas Rodondi por nos ceder seu tempo para esta entrevista.

20 de abril de 2024. Entrevista realizada por telefone (via Zoom) em 31 de janeiro de 2024 entre o professor Nicolas Rodondi e Xavier Gruffat (farmacêutico) para os sites Creapharma.ch, Criasaude.com.br, Pharmapro.ch e Medpro.ch. A entrevista foi então editada para facilitar a leitura.

Entendendo e lidando com a perimenopausa

Se você está enfrentando ondas de calor, menstruações irregulares, mudanças de humor ou aumento de peso com concentração de gordura abdominal, pode ser que você esteja passando pela perimenopausa. Esta fase é uma transição natural na vida de uma mulher, que antecede a menopausa. Durante esse período, o corpo passa por flutuações hormonais que podem resultar em uma variedade de sintomas, podendo impactar significativamente a saúde e o bem-estar. Mas como navegar por essa fase da vida?
O Criasaude reuniu as informações científicas mais relevantes e entrevistou a ginecologista Dra. Amanda Loretti, especialista em ginecologia endócrina pela Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP, para te ajudar a entender melhor o que é a perimenopausa, seus sintomas, tratamentos e estratégias para uma transição saudável.

Entendendo e lidando com a perimenopausa

O que é a perimenopausa?

A perimenopausa, também conhecida como pré-menopausa, é uma fase do climatério, marcada por flutuações hormonais que antecedem a menopausa. Esta última é definida quando a mulher fica 12 meses consecutivos sem menstruar, devido ao encerramento da liberação de óvulos e, por consequência, à diminuição na produção de estrógeno e progesterona, geralmente entre os 40 e 55 anos1. A perimenopausa pode começar até 10 anos antes da menopausa, por volta dos 30 anos.

Sintomas da perimenopausa

Os sintomas da perimenopausa podem variar de mulher para mulher e podem incluir 2:

Ondas de calor (fogachos): um dos mais famosos sintomas da menopausa, que são súbitos episódios de calor intenso muitas vezes acompanhados de sudorese e vermelhidão facial.

Alterações de humor: oscilações de humor, irritabilidade, depressão e ansiedade são comuns.

Distúrbios no sono: dificuldade em adormecer e manter o sono, bem como insônia.

Alterações no ciclo menstrual: ciclos menstruais mais curtos ou longos, variações na quantidade de sangramento e irregularidades nos intervalos entre menstruações, além de agravamento dos sintomas da tensão pré-menstrual (TPM).

Secura vaginal: a diminuição dos níveis de estrogênio pode resultar em secura vaginal e desconforto ou até dor durante a relação sexual.

Diminuição da libido: diminuição do desejo sexual.

Outros sintomas: lapsos de memória, ressecamento da pele/olhos/boca e aumento da necessidade de urinar.

É importante notar que nem todas as mulheres experimentam todos esses sintomas e que a gravidade dos sintomas pode variar.

Como identificar se estou na perimenopausa?

Não existe um sintoma ou exame laboratorial específico que irá determinar se você está ou não na perimenopausa ou menopausa. Esta avaliação deve ser feita com base no histórico menstrual, avaliação de sintomas e se necessário testes laboratoriais de dosagem de hormônios3.

Tratamentos da perimenopausa

O tratamento da perimenopausa tem o objetivo de aliviar os sintomas e melhorar a qualidade de vida das mulheres durante essa transição. Segundo a ginecologista Dra. Amanda Loretti, o principal tratamento para os sintomas da perimenopausa é adotar hábitos de vida saudáveis como praticar atividades físicas e alimentação saudável.

A atividade física deve ocorrer idealmente 4 vezes por semana, sendo uma mescla de atividades de força com aeróbicos, que reduzem o risco cardiovascular, a chance de câncer de mama, o risco de osteoporose, ajuda com a variação do humor, reduz sintomas depressivos e ansiosos e auxilia a saúde do sono.

A alimentação saudável, seria uma alimentação baseada principalmente em alimentos naturais como frutas, verduras, grãos e tubérculos. Evitar o consumo de cafeína, álcool e industrializados em excesso ajuda com o controle das ondas de calor e é importante para a manutenção da saúde.

Outros tratamentos podem ser necessários, caso os sintomas ainda estejam muito fortes e impactando o dia a dia, como:

Terapia de reposição hormonal (TRH): A TRH envolve a reposição de estrogênio e progesterona, podendo ajudar a aliviar os sintomas graves da perimenopausa. No entanto, é importante discutir os riscos e benefícios da TRH com a equipe médica que te acompanha, pois ela pode estar associada a certos riscos, como coágulos sanguíneos e câncer de mama.

No caso de secura vaginal, existem medicamentos tópicos a base de estrógeno e estradiol como comprimidos vaginais, creme e anel vaginal. Eles agem localmente diminuindo os riscos sistêmicos do uso do estrógeno.

Medicamentos não hormonais: Alguns medicamentos, como antidepressivos e medicamentos para pressão arterial, podem ser prescritos para ajudar a aliviar os sintomas da perimenopausa, como alterações de humor e ondas de calor.

Tratamentos naturais: Existem diversas ervas que atuam amenizando sintomas do climatério e podem ser prescritas a depender de cada caso, algumas das ervas mais conhecidas para essa fase são: soja (isoflavonas), cimicifuga, folha de amora (isoflavonas), sálvia, entre outras.

Lubrificantes: no caso da secura vaginal, o uso de lubrificantes pode ajudar a diminuir o desconforto durante relações sexuais. Caso não seja suficiente, o uso tópico de hormônios pode ser prescrito pela equipe médica, saiba mais em tratamento de reposição hormonal.

É importante lembrar que os tratamentos devem ser acompanhados e prescritos (com exceção do lubrificante) por uma equipe médica ou especialistas (no caso dos tratamentos naturais).

Quando procurar ajuda médica?

O climatério não é uma patologia, muitas mulheres podem passar por esse período sem precisar de tratamentos específicos, no entanto o acompanhamento médico durante esse período é essencial mesmo sem sintomas incômodos. Nesta fase da vida é importante realizar exames preventivos como mamografia, colonoscopia, avaliação da saúde dos ossos através da densitometria e avaliação do risco cardiovascular, explica a ginecologista Dra. Amanda Loretti.

Para além dos exames e acompanhamento de rotina, quando os sintomas começarem muito cedo (antes dos 35) ou quando os sintomas estiverem impactando o bem-estar, o auxílio e acompanhamento médico é ainda mais importante.

Dicas para uma transição saudável

Além do tratamento médico, existem várias estratégias que as mulheres podem adotar para navegar pela perimenopausa de maneira saudável:

Informação: busque informações sobre a perimenopausa para entender melhor as mudanças em seu corpo.

Apoio emocional: tenha um sistema de apoio emocional com amizades, familiares e profissionais de saúde.

Autocuidado: priorize o autocuidado, praticando técnicas de relaxamento e reservando tempo para atividades prazerosas.

Redação
Por Adriana Sumi (farmacêutica), 22.04.2024

Por que a cafeína deve ser evitada na infância?

O hábito de consumir cafeína, tão comum na vida adulta, tem suscitado preocupações crescentes quando se trata das crianças. Enquanto muitos adultos recorrem à cafeína para se manterem alertas e enérgicos ao longo do dia, seus efeitos sobre o desenvolvimento físico e cognitivo das crianças são motivo de debate e cautela.

Por que a cafeína deve ser evitada na infância?

Para entender melhor esses impactos e os reais risco da cafeína para as crianças, entrevistamos a nutricionista Paula Stancari (CRN3 17228), especializada em nutrição materno infantil e saúde da família, criadora do método Bebê Comendo Bem e fundadora da Clínica de Nutrição Materno infantil Paula Stancari.

Impactos da cafeína no desenvolvimento infantil

Especialistas advertem que a cafeína deve ser evitada até os 12 anos de idade, e com razão. Apesar de pessoas em qualquer idade serem suscetíveis à cafeína, as crianças são mais afetadas por seu efeito, “Uma quantidade insignificante para um adulto pode ser “surpreendente” para uma criança pequena”, alerta a nutricionista Paula Stancari.

A maior sensibilidade ao efeito da cafeína nas crianças se dá devido ao menor tamanho corporal, por não terem sido expostos cronicamente a cafeína (menos tolerância), provavelmente, por estarem com o cérebro ainda em formação e por não terem a sabedoria de perceber quando já consumiram muita cafeína.

O excesso de cafeína em crianças pode causar 1:

Arritmias (ritmos cardíacos anormais).

Aumento da pressão arterial

Ansiedade.

– Desidratação.

Diarreia.

– Dores de cabeça.

– Mudanças de humor.

– Inquietação ou nervosismo.

– Convulsões.

– Distúrbios do sono.

– Tremores.

– Desconforto estomacal, aumento de refluxo ácido.

– Interferência no desenvolvimento neurocognitivo. Um estudo transversal com 4243 crianças em idade escolar revelou que aquelas que ingeriam café ou refrigerante diariamente tinham o dobro de risco de desenvolver distúrbios do sono2.

Por que a cafeína deve ser evitada na infância?

Além do café, outros alimentos contêm cafeína e devem ser evitados

Segundo a American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, a maioria das crianças e adolescentes bebe ou come alguma forma de cafeína diariamente.

A cafeína é encontrada naturalmente em alguns alimentos e bebidas à base de plantas e pode ser adicionada a produtos industrializados. É importante identificar as principais fontes de cafeína presentes na alimentação das crianças, que geralmente vêm de refrigerantes (principalmente do tipo cola e guaraná), café e chás (principalmente chá preto e chá branco) ou de produtos industrializados, ler os rótulos dos produtos é muito importante.

Fontes de cafeína3:

– Refrigerantes, principalmente à base de cola e depois guaraná.

Café

– Chás (preto, branco, verde, chimarrão e mate), incluindo os chás gelados.

– Bebidas energéticas

– Chocolate e alguns alimentos com sabor “café” (sorvetes, iogurtes, doces de grãos de café)

– Outras bebidas (sucos) e alimentos para petiscar (balas, chicletes, manteiga de amendoim, barras de energia) com cafeína adicionada – Alguns medicamentos de venda livre

– Suplementos (suplementos para perda de peso, energia e exercícios)

Não há um consenso global sobre os limites seguros de consumo de cafeína para crianças. As recomendações da Associação Brasileira de Pediatria são de evitar a cafeína até os 12 anos de idade e estabelecem um limite de ingestão diária para adolescentes entre 12 e 18 anos, não excedendo 100mg por dia, equivalente a uma xícara de café4.

Dicas para uma abordagem saudável e educativa

Separamos algumas sugestões da nutricionista infantil Paula Stancari de como abordar o consumo de cafeína com as crianças de forma saudável e algumas dicas práticas para o dia a dia:

– Tenha conversas abertas, honestas e de fácil entendimento, com as crianças sobre o que é a cafeína, onde é encontrada e seus efeitos no corpo das crianças: atrapalha o sono, dá agitação e irritabilidade e faz o coração bater mais forte.

– Incentive o consumo de água, água de coco, sucos naturais, leite, vitaminas de frutas e iogurtes.

– Seja um exemplo positivo para as crianças, não tenha em casa refrigerantes e energéticos, assim a criança não sentirá falta desse tipo de bebida, pois não teve acesso e não está exposta.

– Mantenha canais de comunicação abertos com as crianças para que elas se sintam à vontade para fazer perguntas e compartilhar preocupações sobre o consumo de cafeína.

– Em festinhas combine com a criança para consumir suco ou água, preferencialmente.

– Se for um hábito da família consumir chá, opte por versões sem cafeína como camomila, erva doce, chá de frutas.

– Caso a criança já esteja habituada a consumir o café com leite, substitua pelo café solúvel descafeinado em água ou outras opções mais saudáveis como por exemplo vitamina de fruta.

Redação
Por Adriana Sumi (farmacêutica), 21.03.2024

7 dicas para prevenir o declínio cognitivo e demência

Com o aumento da população mundial e a expansão da expectativa de vida, temos testemunhado um notável aumento nos casos de demência. De acordo com previsões de um grupo de pesquisadores internacionais, espera-se que 152,8 milhões de pessoas sejam afetadas por algum tipo de demência até o ano de 2050, representando um aumento de 2,7 vezes em comparação com os números de 20191.

7 dicas para prevenir o declínio cognitivo e demência

Embora o declínio cognitivo seja uma parte natural do envelhecimento, existem fatores que podem acelerar esse processo e aumentar o risco de demência. Utilizando o banco de dados britânico e cruzando dados com 210 fatores de riscos modificáveis, cientistas estimaram que 47,0 a 72,6% dos casos de demência poderiam ser prevenidos 2.

Para entender melhor esses fatores entrevistamos a neurocientista Dra. Elisa Resende (CRM: 52181), professora adjunta da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais e da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, vice-coordenadora do Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia, integrante do Atlantic Fellow for Brain Equity na Universidade da Califórnia (EUA) e separamos 7 dicas para prevenir o declínio cognitivo e demência:

1. Exercite-se regularmente

Pratique atividades físicas aeróbicas, como corrida, caminhada, natação ou hidroginástica. O ideal é praticar 5 vezes por semana, por pelo menos 30 minutos consecutivos, mas se você não consegue tudo isso, faça o que é possível. “Mesmo pequenas quantidades de exercícios aeróbicos podem reduzir os riscos de declínio cognitivo”, explica a Dra. Elisa Resende.

2. Mantenha sua mente ativa

Assim como um músculo, o cérebro precisa ser exercitado para se manter saudável. Existem várias maneiras de manter seu cérebro em forma, como resolver palavras cruzadas ou Sudoku, ler, jogar cartas ou montar quebra-cabeças. Encare isso como uma variedade de treinamento para o cérebro. Integre diferentes tipos de atividades para aumentar a eficácia. Estudar e aprender novas atividades também fazem diferença, pessoas alfabetizadas e com maior grau de estudo formal, correm menos risco de declínio cognitivo e demência.

Evite assistir TV ou vídeos no celular em excesso, pois é uma atividade passiva que pouco estimula seu cérebro.

3.Cuide da saúde vascular

A saúde de suas artérias e veias é crucial não apenas para a saúde do coração, mas também para a saúde cerebral. Faça verificações regulares de pressão arterial, açúcar no sangue e colesterol, tome medidas para manter esses números dentro da faixa normal.

Um dos fatores que aumenta o risco de declínio cognitivo e o surgimento de demência é a hipertensão, diabetes e colesterol alto não tratados.

4. Adote uma alimentação saudável

Diversos estudos apontam que alimentos ultraprocessados estão associados ao aumento do risco de declínio cognitivo e demência, portanto evite ao máximo esses tipos de alimentos.

Dentro de diferentes tipos de alimentações benéficas para o cérebro, a dieta mediterrânea parece ser uma das mais promissoras. É uma dieta rica em frutas e verduras, pouco industrializados, que dá preferência ao consumo de carne branca ao invés da carne vermelha, rica em castanhas e nozes, com baixo consumo de carboidratos e maior consumo de fibras3.

5. Cuide da sua audição

Proteja sua audição controlando o volume dos dispositivos eletrônicos e utilizando protetores auriculares em ambientes ruidosos. Para aqueles com perda auditiva, o uso de aparelhos auditivos pode ajudar a reduzir o declínio cognitivo ao longo do tempo.

Pessoas com perda auditiva estão mais propensas ao declínio cognitivo e demência, então cuide do volume dos aparelhos eletrônicos, principalmente no uso de fone de ouvido, e caso você faça uma atividade que envolva grandes ruídos não esqueça de utilizar os protetores auriculares.

Para as pessoas que já possuem perda auditiva e um alto risco de declínio cognitivo, os aparelhos auditivos podem reduzir o declínio cognitivo ao longo de 3 anos, é o que indica um estudo publicado na revista The Lancet em setembro de 20234.

6. Mantenha uma vida social ativa

Fortaleça seus laços sociais, pois eles estão associados a um menor risco de demência, bem como a uma pressão arterial mais baixa e uma vida mais longa. A interação social também ajuda a afastar a depressão e o estresse, fatores que podem contribuir para a perda de memória e declínio cognitivo. Procure oportunidades para se conectar com pessoas queridas, especialmente se você mora sozinho.

7. Proteja sua cabeça

Evite lesões traumáticas na cabeça, usando sempre capacete e cinto de segurança.

Redação

Adriana Sumi (farmacêutica)

Azeite de oliva: 5 benefícios para a saúde

Por Seheno Harinjato (jornalista)

Alimento emblemático da dieta mediterrânica, o óleo (azeite) de oliva é particularmente apreciado por suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias associadas a menor risco de doenças cardiovasculares e outros benefícios à saúde. Um estudo publicado em 2022 no Journal of the American College of Cardiology1revela por exemplo que consumir mais de 7 gramas (mais de meia colher de sopa) de óleo de azeitona por dia estaria associada a um menor risco de mortalidade por doenças cardiovasculares, câncer, doenças neurodegenerativas e doenças respiratórias. Aqui está um breve resumo dos 5 principais efeitos benéficos do azeite para a saúde, que o tornam um dos alimentos preferidos para se viver mais.

Tipos de azeite de oliva

É importante mencionar que existem diferentes tipos de azeite de oliva, incluindo o azeite de oliva refinado, o azeite de oliva virgem e o azeite de oliva extra virgem. Entre essas três formas de azeite, o azeite de oliva extra virgem é o mais benéfico para a saúde, pois suas propriedades permanecem intactas devido a um método de extração a frio. Essa técnica evita que o azeite (óleo) seja alterado pela temperatura ou produtos químicos. Portanto, é a versão menos processada e mais rica em antioxidantes e gorduras saudáveis para o coração. Este óleo também é conhecido como EVOO (abreviação em inglês para extra virgin olive oil), termo que era principalmente utilizado por especialistas, mas que recentemente também tem sido adotado pelos consumidores. De fato, o termo “azeite de oliva” ou “óleo de oliva”  às vezes esconde produtos de qualidade duvidosa. Agora, quando se trata de EVOO, geralmente nos referimos a óleos de azeite de oliva extra virgem de alta qualidade. Para garantir que você esteja escolhendo um azeite de oliva de alta qualidade, procure por um que tenha sido testado quanto à pureza e qualidade,  que atenda às normas estabelecidas pelo Conselho Oleícola Internacional (COI).

Azeite de oliva: 5 benefícios para a saúde

1. Fonte de gorduras saudáveis

Uma das principais vantagens do azeite de oliva é o seu teor de gorduras monoinsaturadas. Isso ajuda a reduzir o colesterol total e as lipoproteínas de baixa densidade LDL, ou “mau” colesterol, a baixar a pressão arterial e a combater as inflamações prejudiciais2.Para aproveitar ao máximo esse efeito benéfico do azeite de oliva na saúde, os pesquisadores recomendam substituir completamente as gorduras saturadas por gorduras monoinsaturadas. Portanto, é recomendável usar EVOO em vez de manteiga, margarina, maionese, gorduras lácteas e outros tipos de óleo.

2. Bom para a saúde do coração O

azeite de oliva ajuda a reduzir os lipídios e a pressão arterial. Devido aos polifenóis presentes no EVOO, ele pode ajudar a proteger contra a aterosclerose, um endurecimento das artérias, derrame e doenças cardiovasculares. Além disso, o ácido oleico, o principal ácido graxo do azeite de oliva, que representa cerca de 73% do próprio óleo, também é bom para o coração. É uma gordura monoinsaturada que ajuda a reduzir o colesterol ruim, aumentar o colesterol bom e limitar o risco de doenças cardíacas e derrames. Outro composto presente no azeite de oliva, a oleuropeína, conhecida por sua capacidade de ajudar a baixar a pressão arterial, também participa da proteção das lipoproteínas de baixa densidade LDL, ou “mau” colesterol, e de oxidações3.

3. Alto teor de antioxidantes

Os antioxidantes são moléculas que protegem as células contra os danos causados pelos radicais livres. Estes últimos são moléculas instáveis no corpo cuja presença pode causar estresse oxidativo, aumentando o risco de envelhecimento e desenvolvimento de doenças crônicas. Os antioxidantes formam assim uma espécie de escudo ao redor das células, e o EVOO contém mais de 20 tipos de polifenóis, um tipo de antioxidante que ajuda a reduzir a inflamação no organismo e a preservar a saúde do coração.

4. Protege contra o câncer

O estresse oxidativo que mencionamos anteriormente desempenha um papel importante no desenvolvimento do câncer, daí a relevância dos antioxidantes presentes no azeite de oliva. Um estudo publicado na revista Molecular & Cellular Oncology4mostrou que um componente do azeite de oliva prensado a frio foi capaz de matar células cancerosas, em um experimento in vitro. Foi demonstrado que os compostos e os antioxidantes presentes no EVOO podem ajudar a reduzir o risco de câncer. O oleocanthal, em particular, desempenharia um papel na morte celular das células cancerosas, agindo como um medicamento anti-inflamatório, uma vez que pode reduzir os danos oxidativos causados pelos radicais livres, que são um dos principais fatores do câncer.

5. Melhora o desempenho cerebral

O azeite de oliva é benéfico para o cérebro. Um estudo publicado no Journal of the American College of Cardiology5 mostrou uma redução de 29% no risco de morte por doença neurodegenerativa com o consumo regular de azeite de oliva, em média mais de meia colher de sopa por dia, ou cerca de 7 gramas. Outros estudos, como o publicado no Wiley Online Library6,que foi conduzido em camundongos, confirmam esse efeito benéfico do azeite de oliva para a cognição. De fato, os resultados revelaram uma redução na incidência da doença de Alzheimer e uma diminuição significativa nos níveis de depósito de peptídeos β-amiloides (Aβo) no cérebro.

Azeite de oliva: 5 benefícios para a saúde

21 de fevereiro de 2024

Supervisão Científica:
Xavier Gruffat (farmacêutico)

Créditos fotográficos e infográficos:
Criasaude.com.br, Adobe Stock, © 2024 Pixabay, Pharmanetis Sàrl

Cetamina: esperança na depressão resistente

Melhorar um quadro de depressão pode ser uma jornada desafiadora. Os medicamentos antidepressivos convencionais e a busca por aconselhamento psicológico costumam ser eficazes para muitas pessoas, mas algumas não encontram alívio adequado. Os sintomas podem persistir sem melhora significativa, ou mesmo quando melhoram, tendem a retornar com frequência. Essas são as características da depressão que não responde bem aos tratamentos convencionais, conhecida como depressão resistente ao tratamento (DRT).

Cetamina: esperança na depressão resistente

Cerca de um terço dos quase 9 milhões de pessoas nos Estados Unidos tratadas para depressão a cada ano têm DRT1. Para ser considerada DRT, a pessoa tem que ter não respondido a pelo menos 2 tratamentos com medicamentos convencionais realizados adequadamente. O que pode significar anos de tratamento sem melhora. Em meio a esse cenário desafiador, surge uma nova esperança com o tratamento com a cetamina.

O que é a cetamina e como funciona?

A cetamina, utilizada como anestésico desde 1970, passou a ser pesquisada por sua capacidade de proporcionar alívio rápido e significativo nos sintomas depressivos a partir dos anos 2000 e teve a aprovação de órgãos regulatórios dos Estados Unidos (FDA) e União Europeia (EMA) em 2019. No Brasil a cetamina teve sua primeira autorização para tratamento de depressão resistente em 2020.

Seu mecanismo de ação difere dos antidepressivos convencionais como os inibidores seletivos de recaptação de serotonina – ISRSs, atuando sobre os receptores NMDA no cérebro, modulando as vias neuronais relacionadas às emoções e gerando novas conexões.

Para quem a cetamina é indicada?

A cetamina é indicada no caso da depressão resistente, ao seja, quando a pessoa já passou por pelo menos 2 tratamentos feitos integralmente com os medicamentos convencionais, geralmente inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS), e não teve melhora nos sintomas da depressão e/ou ideações suicidas.

Ela também está sendo utilizada em tratamentos de dor crônica, ansiedade e outras questões psiquiátricas mesmo sem estar autorizada para isso oficialmente, mas com embasamento de estudos clínicos preliminares (uso off label, que não consta na bula).

Benefícios

Os benefícios do tratamento com cetamina no caso da DRT são notáveis e rápidos.

Um estudo publicado em setembro de 2022 na revista científica Psychiatrist, demonstrou que metade dos pacientes tiveram uma melhora significativa após 6 semanas de tratamento e 70% após 10 semanas2. Além disso, os pacientes relatam melhora já nas primeiras aplicações de cetamina o que é bem diferente no caso dos ISRS que geralmente demoram meses para fazer efeito.

Como a cetamina é administrada?

A cetamina pode ser administrada de diversas formas, sendo a infusão intravenosa e a aplicação intranasal as mais comuns, mas também existem a administração subcutânea e intramuscular, a forma oral ainda sendo estudada3.

Atualmente o tratamento com cetamina só pode ser realizado em hospitais e clínicas de saúde com o monitoramento de um profissional de saúde, que utilizam escalas de avaliação específicas para rastrear as mudanças nos sintomas depressivos e ajustar o tratamento conforme necessário. Esta abordagem personalizada visa otimizar os benefícios e minimizar os riscos associados ao tratamento com cetamina.

As sessões de aplicação duram entre 40 e 60 minutos.

A escolha da forma de administração e o tempo de tratamento irá depender das necessidades individuais de cada pessoa em conjunto com as orientações do profissional de saúde.

Efeitos colaterais e riscos

Os efeitos colaterais mais comuns são confusão mental, sonhos ou delírios, aumento da pressão sanguínea ou dos batimentos cardíacos. Como trata-se de um anestésico, a sonolência está presente. As pessoas são recomendadas a não dirigir após a sessão de aplicação da cetamina.

A taquifilaxia, comprometimento cognitivo, dependência e problemas renais e urinários graves podem acontecer, mas são raros4.

Ainda são necessários mais estudos científicos de acompanhamento de pacientes por um período maior para determinar se o efeito e segurança deste tipo de tratamento se mantém a longo prazo.

O risco de abuso e dependência da cetamina são reais. A cetamina é utilizada de “forma recreativa” há décadas, devido ao seu efeito dissociativo. Em outubro de 2023, o ator Matthew Perry da minissérie Friends morreu devido aos “efeitos agudos da cetamina”, ele foi encontrado desacordado de barriga para baixo na piscina de sua casa. Perry, que lutava contra depressão e abuso de substâncias há anos, fazia tratamento com cetamina para depressão resistente, no entanto a concentração de cetamina encontrada em seu organismo não poderia ser da sessão que havia feito uma semana antes, segundo laudo da necropsia. Especialistas relatam que este é um caso isolado de abuso da substância fora do tratamento da depressão5.

Quem não deve usar

A cetamina é contraindicada em casos de hipersensibilidade conhecida a cetamina ou a qualquer outro componente de sua fórmula, hipertensão, história de acidente vascular cerebral e pacientes com insuficiência cardíaca grave6.

Perspectivas futuras

A cetamina também tem um grande potencial para tratamento não só da depressão resistente, mas também para outras doenças psiquiátricas e questões neurológicas, como ansiedade, dor crônica e epilepsia. Porém devemos ter atenção tanto ao seu potencial de abuso como para novas pesquisas de eficácia e segurança a longo prazo.

Redação
Adriana Sumi (farmacêutica)