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8 vírus que podem causar câncer

A ciência não sabe exatamente o que causa a maioria dos tipos de cânceres, mas vários fatores já foram associados a um maior risco de desenvolver câncer, como estilo de vida (ex.: fumar), para alguns tipos de câncer específicos a hereditariedade (ex.: histórico de câncer de mama na família) e algumas vezes um vírus pode ser um fator desencadeante. 

Um câncer ocorre quando uma célula do nosso organismo sofre uma alteração no DNA, mais especificamente em genes que controlam a divisão celular (proto-oncogenes), que no caso do câncer fica super estimulada, e essa célula “escapa” do nosso sistema de defesa ou se proliferam mais rápido do que ele consegue conter. 

Relação dos vírus e câncer
Os vírus são responsáveis por  por 10 a 15% dos casos de câncer em todo o mundo1.

Mas não é qualquer vírus que pode levar a um câncer, são somente alguns que afetam tipos específicos de células em nosso organismo e que quando incorporam um vírus no DNA humano ou no ambiente celular, gera uma instabilidade genômica, que por sua vez leva a instabilidades bioquímicas que podem levar uma célula normal virar uma célula cancerígena, é o que explica o oncologista clínico Dr. Ângelo Fêde em entrevista para o Criasaude em maio de 2023. Mesmo durante a infecções desses vírus específicos, são poucos os casos em que um câncer é desenvolvido, ressalta o Dr. Ângelo Fêde2.

Como o vírus podem causar câncer
Atualmente são conhecidas 3 diferentes vias pelas quais um vírus pode causar câncer3.
1. Indução da inflamação crônica (ex. câncer de fígado causado pelo vírus da hepatite B ou C).
2. Supressão do sistema imunológico (ex. vírus HIV).
3. Alteração genética – próton-oncogene em um oncogene (ex. câncer de cólon de útero causado pelo vírus HPV)

Vírus ligados ao câncer
A maioria dos vírus, como os que infectam células do sistema respiratório (ex. vírus causadores de gripe) não são fatores de risco para o câncer, pois eles ficam pouco tempo em nosso organismo e as células de defesa do nosso organismo conseguem rapidamente acabar com as pouquíssimas células que sofrem alterações pelo vírus4.

Existem 8 vírus que estão relacionados com o surgimento de câncer5, são eles:

1. Papilomavírus humano (HPV)

O HPV pode infectar a pele e mucosas causando verrugas genitais e, em casos mais graves, câncer no colo uterino, pênis, ânus, vagina, vulva, orofaringe ou boca. Embora o HPV seja muito comum, a maioria das pessoas com o vírus não desenvolve câncer, existem mais de 150 subtipos deste vírus e somente 12 estão relacionados ao desenvolvimento de câncer. No entanto, as mulheres que têm infecções persistentes por HPV têm um risco aumentado de desenvolver câncer de colo do útero.

A transmissão do HPV é feita através de relações sexuais e a maioria das pessoas com uma vida sexual ativa irá contrair pelo menos uma vez na vida uma infecção de HPV. Para descobrir as melhores formas de prevenção do câncer pelo HPV o Criasaude.com.br entrevistou a Dra. Ana Gabriela, ginecologista e mastologista pela Universidade de São Paulo – USP, em entrevista para o Criasaude.com.br6.

A melhor forma de prevenção é a vacinação enquanto criança ou adolescente, no Brasil a vacina está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) para pessoas de 9 a 14 anos e protege contra 4 subtipos de HPV. No entanto, a vacinação também é benéfica na idade adulta (até 45 anos), só que são necessárias 3 doses ao invés de 2, é o que explica a Dr. Ana Gabriela. Ela também conta que há uma nova vacina contra HPV que age contra 9 subtipos de HPV, no Brasil ela começou a ser comercializada em abril de 2023 e está disponível para pessoas de 9 a 45 anos somente na rede privada.

Além da vacinação outras formas de prevenção são:
– exames de detecção (citológico, também conhecido como papanicolau) a partir dos 25 anos para pessoas com útero;
– o controle e tratamento de lesões quando existentes;
– o uso de preservativos.

2. e 3. Vírus da hepatite B (VHB) e vírus da hepatite C (VHC)

O VHB e o VHC são transmitidos pelo contato com sangue, saliva, sêmen ou secreções vaginais da pessoa infectada ou por via perinatal (durante a gravidez). Tanto o VHB quanto o VHC infectam principalmente as células do fígado e podem levar a danos no fígado como a cirrose, que por sua vez pode levar a um câncer de fígado. São considerados carcinógenos indiretos através da inflamação crônica e lesão celular.

A vacinação contra a hepatite B, três doses, é uma das principais formas de prevenir a infecção pelo vírus. A maioria das pessoas eliminam o VHB espontaneamente, mas uma vez que a pessoa apresenta sintomas, a doença se torna crônica e o tratamento deve seguir a vida toda.
No caso do VHC não há vacinação, no entanto, há tratamentos em que mesmo na forma crônica da doença a pessoa pode ficar curada.

4. Vírus Epstein-Barr (EBV)

Causador da mononucleose (doença do beijo), o EBV é altamente disseminado pela população e um dos fatores para isso é a sua forma de transmissão através do contato direto com saliva, objetos e sangue infectados.

Uma vez que a pessoa é infectada, ficará com o vírus a vida toda, no entanto, na maioria das vezes sem causar nenhum problema de saúde para a pessoa.

Apesar de raro, principalmente em pessoas imunossuprimidas, o EBV pode infectar os linfócitos B e células epiteliais, causando metade dos casos dos linfomas de Hodgkin e de Burkitt, podendo também levar câncer nasofaríngeo e gástrico.

A principal forma de prevenção é evitar o contato com pessoas sintomáticas, não compartilhar talheres ou copos.

5. Vírus de herpes humano tipo 8 (HHV-8)

O HHV-8, é um vírus que pode causar sarcoma de Kaposi, um tipo de câncer que afeta a pele e os órgãos internos, principalmente em pessoas com sistema imunológico enfraquecido. A maioria das pessoas infectadas não desenvolvem câncer.

O HHV-8 é transmitido principalmente pela saliva, mas também pode ser transmitido através de contato sexual e sangue. 

A principal forma de prevenção é evitar o compartilhamento de utensílios, seringas e o uso de camisinha.

6. Vírus do HTLV-1 (vírus da leucemia/linfoma de células T humanas)

O HTLV-1 é um vírus que é transmitido pelo contato com sangue infectado, através do sexo desprotegido, ou durante a amamentação. O vírus pode levar a leucemia e linfoma de células T, e é mais comum em áreas do mundo onde o vírus é endêmico, como o Japão, a África e o Caribe.

A maioria das pessoas infectadas por este vírus não desenvolvem câncer.

A prevenção da infecção é feita através do uso de camisinha e o não compartilhamento de seringas.

7. Poliomavírus de célula de Merkel

Em inglês, chamado de Mekel cell polyomavirus (MCPyV), é o vírus causador do carcinoma de células de Merkel, um câncer de pele raro e agressivo que tende a afetar pessoas brancas mais velhas. Por estar relacionado com a exposição a raios UV, sua prevenção está em limitar a exposição: evitar o sol nas horas mais fortes de raios UV, usar roupas protetoras, utilizar fotoprotetores com filtro de proteção solar (FPS) de pelo menos 30.

8. Vírus da imunodeficiência humana (HIV)

Apesar da infecção pelo HIV (em inglês Human Immunodeficiency Virus) ser um grande fator de risco para diversos cânceres, principalmente cânceres associados a outras infecções, a forma que este vírus aumenta as chances do desenvolvimento do câncer é através da inibição do sistema imunológico da pessoa infectada. Outras formas de imunossupressão causam o mesmo risco de câncer do que o HIV.

Dicas de especialista na prevenção do câncer7:
– Mantenha hábitos saudáveis (alimentação e exercícios moderados);
– Evite o tabagismo (para os que fumam, procurar apoio médico para parar);
– Use preservativos (no caso de sexo fora de um relacionamento fiel);
– Vacine-se;
– Em caso de lesões ou suspeita de alguma doença, procure atendimento e tratamento médico o quanto antes.

Redação
Adriana Sumi (Farmacêutica)

Fontes e Referências
Entrevista realizada pelo Criasaude.com.br em maio de 2023 com a Dra. Ana Gabriela Siqueira, que é médica Ginecologista e Mastologista pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), CRM 162299.

Entrevista realizada pelo Criasaude.com.br em maio de 2023 com o Dr. Ângelo Bezerra de Souza Fêde, especialista em Oncologia Clínica pelo Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP)/Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), membro titular da Oncologia DASA, CRM SP 141741.

Artigo em inglês da Cleveland Clinic, 6 viruses that can cause cancer, de agosto de 2022, acessado pelo Criasaude.com.br em maio de 2023, link funcionando nesta data.

Referências de estudos: mencionadas no artigo ou abaixo.

Flúor: quais são os riscos e os benefícios para a saúde?

Você já deve saber que vários países no mundo adicionam flúor na água tratada, que a maioria dos cremes dentais possuem flúor em sua composição e que tudo isso tem a ver com o combate às cáries! Mas você também já deve ter escutado algum rumor que o flúor faz mal à saúde, de cremes dentais sem flúor ou até mesmo de países que não adicionam flúor na água. Afinal, o flúor é bom ou ruim para a sua saúde? Esta resposta não é simples e nós do Criasaude fomos a fundo nas pesquisas científicas, além de entrevistar a Dra. Elizabeth Patrícia do Patrocinio de Almeida (CROMG 31806) que é odontologista integrativa em Belo Horizonte – Brasil, para te ajudar a entender melhor os benefícios e os riscos do uso do flúor.

Esta resposta não é simples e nós do Criasaude fomos a fundo nas pesquisas científicas, além de entrevistar a Dra. Elizabeth Patrícia do Patrocinio de Almeida, CROMG 31806, que é odontologista integrativa em Belo Horizonte – Brasil, para te ajudar a entender melhor os benefícios e os riscos do uso do flúor.

Flúor e cáries

O flúor, ou melhor os fluoretos, possuem efeito de proteção contra as cáries. Ele age inibindo a desmineralização do esmalte do dente, promovendo a remineralização e inibindo as bactérias na placa dentária. Estes são efeitos tópicos, em outras palavras, não é necessário a ingestão do flúor, ele age no local1.

Segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, a história do uso do flúor na prevenção de cáries começa em 1901, quando um dentista do Colorado (EUA) observou manchas incomuns nos dentes de seus pacientes, que embora manchados eram menos propensos a cáries. Em 1945, após um estudo realizado em 8 cidades nos Estados Unidos e Canada, diversos países começaram a fluoretação das águas públicas em baixa dose.

Embora houvesse dúvidas sobre o elemento na época, diversos países adotaram esta prática, que se tornou uma das medidas mais eficazes no controle das cáries. A fluoretação das águas é uma recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde) e de Ministérios da Saúde de diversos países, como o do Brasil2.

No entanto, alguns países como Suécia, Holanda, Alemanha, Suíça e Israel pararam de fluoretar seus suprimentos de água devido a preocupações com segurança e eficácia. Outros países como México, Canadá, Nova Zelândia e Austrália também já apresentam preocupações em relação ao uso do flúor e comunidades dentro desses países pararam com a fluoretação da água pública3.

Segundo a dentista Dra. Elizabeth Patrícia, especialista em odontologia integral entrevistada pelo Criasaude, a fluoretação de águas não seria recomendada, uma vez que os benefícios do flúor só ocorrem quando há o contato direto entre o flúor e o dente, depois que este já está formado, e a ingestão do flúor causa contaminação de sistemas do corpo humano, podendo levar a toxicidade.
A Dra. Elizabeth Patrícia, também salienta que a cárie é uma questão multifatorial, está envolvida com um estilo de vida, consumo de açúcar e carboidratos, baixa escovação e uso do fio dental, entre outros fatores.

Controversas e perigos do flúor

Em altas doses o flúor pode ser tóxico e um dos primeiros sinais da toxicidade é a fluorose, que são manchas amareladas no esmalte do dente. O risco de fluorose é maior em crianças abaixo de 3 anos4.

Há também evidências científicas de que o flúor seja neurotóxico (tóxico para o cérebro) e que a ingestão constante de flúor pode estar associada a: fraturas esqueléticas, câncer, hipotireoidismo, menor quociente de inteligência (QI) infantil, problemas no desenvolvimento da criança5.

Além disso, a eficácia dos fluoretos no combate à cárie tem sido questionada e alguns estudos apontam que seu efeito seria moderado, com uma redução da prevalência de cáries em aproximadamente 13% e não de 60% como indicam os estudos mais antigos6.

A Dra. Elizabeth Patrícia, que há alguns anos não recomenda creme dental com flúor, nos contou que de fato não tem visto diferença na prevalência de cáries entre as pessoas que utilizam e não utilizam o creme dental com flúor.

Riscos x benefícios

A realidade é que de fato o flúor tem um efeito anti-cárie e foi um importante combatente de cáries, principalmente em regiões com baixas condições socioeconômicas. No entanto, notamos que as justificativas do uso do flúor, seja na fluoretação da água ou no creme dental, assim como os estudos que comprovaram a sua segurança, se dão olhando somente a saúde do dente e não o organismo como um todo.

Levando em conta que o efeito do flúor é tópico e não sistêmico, as autoridades de saúde deveriam rever políticas de ingestão sistêmica de flúor através da água ou alimentos e investir em políticas públicas de prevenção da cárie que sejam mais seguras para a população, como a escovação e a redução do consumo de açúcar.

Em relação ao uso do creme dental com flúor, alguns países já adotaram seu uso somente com prescrição de odontologistas, lidando como um medicamento para casos específicos onde são avaliados os riscos e benefícios do uso do flúor para cada caso, e não um uso em massa da população.

É importante lembrar que o alerta principal para o uso do flúor se dá para as crianças pequenas que estão com seus dentes em formação, tanto em relação ao surgimento da fluorose, como também para os problemas de neurodesenvolvimento.

19 de abril de 2023.

Redação
Adriana Sumi (Farmacêutica)

Fontes e referências
Entrevista realizada pelo Criasaude.com.be em abril de 2023 com a Dra. Elizabeth Patrícia do Patrocinio de Almeida, CROMG 31806, que é odontologista integrativa em Belo Horizonte, Brasil.Instagram: @dra_elizabeth_patricia

Referências de estudos: mencionadas no artigo ou abaixo.

Tratamento da artrite reumatoide: entrevista com um médico especialista

A artrite reumatoide (AR) é uma doença reumática inflamatória autoimune, ou seja, que ataca as próprias articulações ou células. Normalmente, as mãos, pés e pulsos são afetados pela AR, mas a doença também pode se espalhar para outras partes do corpo. Os tratamentos medicamentosos, muitas vezes tomados na forma injetável, evoluíram consideravelmente nos últimos anos com a chegada, em particular, de medicamentos chamados DMARDs, ou seja, agentes modificadores da doença (em inglês “disease modifying antirheumatic drug”). O Criasaude.com.br traz atualizações sobre o tratamento da AR com o reumatologista Dr. Jonathan Greer. Ele exerce a medicina na Flórida, nos Estados Unidos, na região de Palm Beach.

Dr Jonathan Greer

Criasaude.com.br – Dr. Greer, em caso de dor leve a moderada relacionada à artrite reumatoide (AR), quais medicamentos o senhor recomenda? Ao invés de anti-inflamatórios não esteroides, como ibuprofeno, paracetamol (acetaminofeno) ou mesmo corticosteroides?
É de vital importância tratar a doença subjacente que causa a dor. Se a inflamação não for tratada, as articulações sofrerão danos, deformidades e incapacidades. Portanto, o uso do metotrexato como medicamento de primeira linha, seguido de outras terapias direcionadas, incluindo agentes biológicos (DMARDs, leia abaixo), é o caminho a seguir para tratar a doença, que deve, por sua vez, aliviar a dor. No caso de uma exacerbação grave, ocasionalmente recomendo prednisona ou outros esteroides, bem como anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) para aliviar ainda mais a dor. Nunca use apenas esteroides ou anti-inflamatórios não esteroides sem tratar a doença subjacente.

E em caso de dor intensa, devemos mudar para derivados de morfina ou para moléculas um pouco menos fortes, como codeína ou tramadol?
Novamente, o tratamento da doença articular inflamatória subjacente é o mais importante para o controle da dor. Um bolus ou uma redução gradual de esteroides pode ajudar muito rapidamente se a dor for causada por uma condição inflamatória. O uso de opioides deve ser reservado para os casos mais graves que não respondem aos medicamentos típicos da artrite reumatoide.

Em caso de prescrição de morfina ou seus derivados, como limitar uma possível dependência?
Em nossa prática, encaminhamos as pessoas com essa necessidade a especialistas em controle da dor para prescrever opioides. Os opioides eram originalmente controlados pelo estado e pelo governo dos EUA e deveriam ser prescritos por médicos(as) especializados nessa área. Certamente o rastreamento de medicamentos é importante e frequentemente utilizado, assim como o aconselhamento do(a) paciente. No entanto, o problema da dependência de medicamentos, vício e a toxicodependência permanece relevante atualmente.

Mulher com artrite reumatoide (crédito da foto: Adobe Stock)

Em relação aos DMARDs biológicos – muitas vezes referidos simplesmente como “biológicos”, há um grande número de moléculas (leia o resumo abaixo da Mayo Clinic) no mercado hoje, como um(a) médico(a) pode escolher entre tantas soluções?
Reumatologistas estão bem cientes de todos os medicamentos “biológicos” e outras terapias direcionadas que estão disponíveis hoje. A escolha desses agentes é determinada pelas preferências da pessoa sendo tratada, pelas comorbidades e, mais importante, pela segurança. A decisão de usar um desses medicamentos é muito complicada e pode ser tema de um artigo inteiro.

Existem menos DMARDs sintéticos direcionados (baricitinibe, tofacitinibe e upadacitinibe) ou inibidores da JAK, em geral, quando esses medicamentos devem ser prescritos ao invés de DMARDs biológicos na AR?
Nos Estados Unidos, os inibidores de JAK só são aprovados após a falha de um inibidor do fator de necrose tumoral. Existem três desses agentes no mercado e todos vêm com advertências e precauções semelhantes. Eles são, no entanto, muito eficazes e certamente podem ser considerados como parte de nossas opções de tratamento.

Em 2020, o American College of Rheumatology (ACR) recomendou iniciar o metotrexato e continuá-lo ao invés de mudar rapidamente para outro DMARD. Se bem entendi, você tem que testar o metotrexato por um tempo e depois, se a pessoa continuar apresentando certos sintomas, mudar para outro DMARD?
As pessoas em tratamento geralmente recebem metotrexato por pelo menos três meses e, se não houver melhora nesse ponto, adicionamos terapia biológica direcionada. Mudar um DMARD dentro de um mês não permite ter tempo suficiente para ver se é eficaz.

Finalmente, no que diz respeito à cirurgia, ela é reservada para casos graves?
A cirurgia é reservada para pessoas com deformidade significativa e perda de função em uma ou mais articulações. Esta é uma decisão tomada em conjunto pela pessoa em tratamento e sua equipe médica. Felizmente, graças aos medicamentos que temos hoje, a progressão desta doença foi limitada e vejo cada vez menos deformidades que requerem cirurgia.

DMARDs biologicos, resumo da Mayo Clinic
Abatacept (Orencia®), adalimumabe (Humira®), certolizumabe pegol (Cimzia®), etanercepte (Enbrel®), golimumabe (Simponi®), infliximabe (Remicade®), rituximabe (Rituxan®), sarilumabe (Kevzara®), tocilizumabe (Actemra®). Leia nosso dossiê completo sobre artrite reumatoide

19 de abril de 2023. Entrevista realizada em inglês por e-mail em março de 2023 para os sites Creapharma (em inglês e francês) e Criasaude.com.br com o Dr. Jonathan Greer por Xavier Gruffat (farmacêutico, fundador do Creapharma.ch e Criasaude.com.br). A entrevista foi traduzida e adaptada para o francês e português. Créditos das fotos: Dr. Jonathan Greer, Adobe Stock.

Suco de limão: 3 propriedades para tratar doenças do dia a dia

O suco de limão vem do fruto do limão, aqui vamos falar mais especificamente do limão-siciliano ou limão-amarelo (Citrus limon) que é diferente dos limões mais encontrados no Brasil, como o limão-taiti (Citrus latifolia) e o limão-cravo (Citrus × limonia). Eles possuem composições de vitaminas e minerais semelhantes, porém com proporções ligeiramente diferentes. O suco de limão comercial geralmente é preservado com metabissulfito de potássio, que pode causar reações alérgicas, então é melhor preparar o suco você mesmo (receita aqui). Descubra 3 propriedades, baseadas em estudos científicos, para tratar e prevenir vários males ou doenças do cotidiano.

1. Vitamina C: doenças infecciosas (por exemplo, resfriados)

Esta é provavelmente a propriedade mais conhecida do limão e seu suco, esta fruta contém uma quantidade significativa de vitamina C. O suco de limão tem sido tradicionalmente usado como remédio para o escorbuto antes da descoberta da vitamina C1. Este uso muito comum do limão, conhecido desde a Antiguidade, é hoje reforçado por inúmeros estudos científicos. Devido ao seu teor de vitamina C, o suco de limão siciliano é indicado contra várias doenças infecciosas além do escorbuto, como: o  resfriado ( síndrome gripal), a rinite, a gripe ou a cistite. Um estudo publicado no ano 20002 demonstrou atividade bactericida de suco de limão siciliano e derivados do limão siciliano contra Vibrio cholerae, a bactéria que causa cólera. Além da vitamina C, o suco de limão contém outros princípios ativos importantes que podem desempenhar um papel fundamental contra doenças infecciosas, como ácido cítrico, carboidratos, fibras e principalmente flavonoides.
Em 100 g de suco de limão-siciliano, há aproximadamente 39 mg de vitamina C, segundo a instituição americana de referência USDA. Isso significa que com um suco de limão diário de cerca de 200 ml, uma pessoa adulta tem sua quantidade diária recomendada (ver infográfico abaixo, recomendações americanas). A Sociedade Alemã de Nutrição (Deutsche Gesellschaft für Ernährung), por outro lado, considera que 110 mg por dia de vitamina C é suficiente para homens e 95 mg para mulheres.

2. Redução significativa do açúcar no sangue (depois de comer pão)

Um estudo publicado em 20213 mostrou que beber suco de limão, mas não água ou chá, depois de comer pão reduziu significativamente o açúcar no sangue, o famoso índice glicêmico. Um estudo cruzado randomizado foi realizado com porções iguais de pão (100 g) e 250 ml de água, chá preto ou suco de limão. As concentrações de glicose no sangue capilar foram monitoradas por 180 minutos utilizando o método da picada no dedo. Os resultados mostraram principalmente que o chá não teve efeito na resposta glicêmica. Por outro lado, o suco de limão reduziu significativamente o pico médio de concentração de glicose no sangue em 30% e atrasou-o em mais de 35 minutos. O efeito do limão viria de uma diminuição do pH da refeição, o que leva a uma desaceleração na digestão do amido (um açúcar). Resumindo, se você é diabético, beber suco de limão após cada refeição pode ser uma ótima ideia ou pelo menos para quem tem alto teor de açúcar.

Resultado do estudo, eixo X = tempo em minutos e eixo Y = quantidade de açúcar no sangue em mmol/L – Wate=água, Tea=thé,  Lemon juice=suco de limão (fonte da foto: estudo)

3. Dor de garganta

Como um gargarejo, misturado em partes iguais com água quente (mas não fervente), o suco de limão pode ser um desinfectante (anticéptico) muito bom para o tratamento de dor de garganta. O hospital americano de referência mundial, o Cleveland Clinic, apontou em um artigo recente a possibilidade de adicionar um pouco de mel a essa mistura de água quente e suco de limão. O mel, assim como o limão, tem um efeito antibacteriano e antiviral.

Por Xavier Gruffat (farmacêutico), ideia original de XG. De 19 de abril de 2023. Fonte: Pharmawiki.ch. Referências de estudo: mencionadas no artigo ou abaixo. Créditos da foto: Adobe Stock.

Perda de peso: como funcionam Ozempic® e Wegovy®?

Ozempic®, em particular, e Wegovy® continuam fazendo manchetes em todo o mundo e especialmente nas redes sociais. O número de postos no Instagram ou no TikTok do tipo “antes e depois” depois de tomar essas drogas está nos milhões, inclusive em personalidades famosas como Elon Musk. Ambos os medicamentos, tomados como injeções semanais, são baseados em semaglutídeos, uma molécula antidiabética pertencente à família dos agonistas receptores da GLP-1. O semaglutido foi originalmente desenvolvido pelo laboratório dinamarquês Novo Nordisk para pacientes que sofriam de diabetes, mas tanto o fabricante quanto os pacientes viram um efeito colateral incomum, a perda de peso. Deve-se notar que em vários países o Ozempic® é especificamente indicado para diabetes tipo 2 e o Wegovy®, com uma dose mais alta, para obesidade. O Wegovy® pode levar a uma perda de peso entre 15 e 18%. Mas como funciona o semaglutide?

Semaglutide e GLP-1

Semaglutido é um hormônio sintético, constituído de 31 aminoácidos, que atua como Glucagon-Like-Petptide 1 (GLP-1). É também referido como um análogo de longa ação da GLP-1 com uma homologia de sequência de 94%. Como pode ser visto na figura abaixo, o semaglutido é uma molécula muito grande, ao contrário de moléculas pequenas como o paracetamol (apenas alguns poucos átomos). Como todos os hormônios, a GLP-1 atua como um mensageiro entre diferentes órgãos, por exemplo, entre o intestino e o cérebro. Cada vez que comemos, as células intestinais liberam a GLP-1 na corrente sanguínea. Quando a GLP-1 chega ao pâncreas, esse órgão libera insulina, um hormônio essencial para regular os níveis de açúcar no sangue. A GLP-1 também inibe a liberação do glucagon, resultando em uma diminuição da liberação de glicose do fígado.

Cérebro e estômago

Mas talvez a coisa mais extraordinária sobre a GLP-1, bem como sobre o semaglutido, é que essas moléculas atuam sobre o cérebro no nível do hipotálamo, aumentando a saciedade. Em outras palavras, depois de tomar o semaglutido, a gente está muito menos faminto. No entanto, o mecanismo exato ainda não está totalmente compreendido no nível do cérebro, de acordo com o jornal suíço de referência NZZ do 7 de agosto de 2022. A GLP-1 (e semaglutídios) também retarda a evacuação do bolo alimentar no estômago. Esse efeito é importante para a perda de peso e controle da diabetes, pois reduz a taxa de entrada de glicose na corrente sanguínea. Os agonistas receptores da GLP-1 tendem a causar menos episódios de hipoglicemia, pois seu efeito só ocorre quando os níveis de glicose aumentam.

Molécula de semaglutide (crédito fotográfico: Adobe Stock)

Efeitos negativos, problema a longo prazo

Embora os efeitos na perda de peso e no controle do diabetes pareçam muito favoráveis, o semaglutido pode levar a efeitos colaterais, como distúrbios gastrointestinais como náuseas, vômitos, diarréia, dor abdominal e constipação. O professor Robert Doyle, da Universidade de Syracuse, nos Estados Unidos, que está trabalhando em moléculas anti-obesidade com menos efeitos colaterais, observa: “Dentro de um ano, 80-90% das pessoas que começam a tomar esses medicamentos (anólogos GLP-1, como o semaglutido) deixam de tomá-los. O semaglutídio também está contra-indicado em algumas pessoas, como aquelas com pancreatite.

Ler também: Medicamentos contra a obesidade (como semaglutida): entrevista com uma especialista

Artigo atualizado em 29 de março de 2023. Por Xavier Gruffat (Dipl. Pharm. ETH Zurich, Suíça). Fontes: The Wall Street Journal, NZZ.ch, Pharmawiki.ch, MSN.com (e R7.com). Leia nosso artigo original em francês sobre o Creapharma.ch.

CBD pode ajudar em casos de ansiedade?

Você recentemente já deve ter ouvido falar sobre CBD (canabidiol), alguém próximo que começou a tomar ou até mesmo recebeu uma “indicação” na mesa de bar depois de contar sobre seus problemas em lidar com o estresse, ansiedade ou dificuldade para dormir. Mas para além do boca-a-boca, será que o CBD tem de fato efeito para acalmar a ansiedade?

A ansiedade é um transtorno mental comum, que muitas de nós experimentamos nos últimos anos com a pandemia do COVID-19. Esse transtorno pode causar preocupação e medo excessivo, levando a um impacto significativo na vida das pessoas que o manifestam. Embora existam diversas opções de tratamento disponíveis, muitas pessoas não respondem bem aos tratamentos convencionais ou têm efeitos colaterais indesejados. É por essas e outras que os tratamentos naturais têm sido cada vez mais procurados e o CBD ganha destaque nessa procura.

O Criasaude fez uma pesquisa dos estudos recentes sobre CBD e ansiedade, além de entrevistar a Dra. Shadia Fouad Sharaf El Din (CRM-SP 185580) – que é médica especialista em Neurociências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), pós-graduada em Medicina do Estilo de Vida pelo Hospital Israelita Albert Einstein, que atualmente  pesquisa o efeito do óleo de cannabis provenientes de associações terapêuticas em pessoas que convivem com dor crônica na Unifesp- para te ajudar a decidir se o CBD pode ou não ser uma boa opção para lidar com a sua ansiedade.

Dra. Shadia Fouad Sharaf El Din

O que é o CBD?
O canabidiol (CBD) é um dos muitos compostos canabinóides encontrados na Cannabis sativa, popularmente chamada como maconha. Ele age no sistema endocanabinoide do corpo humano, que é responsável por regular várias funções corporais, incluindo o humor e a resposta ao estresse. Sua ação se dá através de receptores CB1, predominantemente no Sistema Nervoso Central, e de receptores CB2 que estão presentes em órgãos periféricos e nas células do sistema imune. Uma de suas possíveis ações é de “acalmar” o sistema nervoso central. A vantagem do CBD, ao contrário do THC (a molécula responsável pelo efeito psicoativo), é que ele não causa alucinações ou efeitos psicoativos, mas leva a um relaxamento muscular e pode também atuar como analgésico. O CBD é frequentemente vendida em óleo, por exemplo, como tintura, chá de ervas, comida ou bebida.

O CBD realmente ajuda a reduzir a ansiedade?
No que diz respeito aos estudos científicos, há várias evidências de que o CBD realmente tenha efeito em casos de ansiedade e outros distúrbios neuropsiquiátricos (ex. epilepsia e esquizofrenia), como demonstrado em um estudo de 2019 publicado na revista Current Opinion in Psychiatry1 e que revisou várias pesquisas sobre o uso de CBD para tratar a ansiedade.
Outro estudo que demonstrou o efeito do CBD em casos de ansiedade foi o estudo clínico randomizado publicado em 2021 na revista JAMA Netw Open2, que envolveu 120 profissionais de saúde que utilizaram 300 mg de canabidiol (ou placebo) por 28 dias.
É verdade que ainda são necessários estudos clínicos maiores para que haja um entendimento maior do efeito do CBD sob a ansiedade e para investigar a dose eficaz para esse e outros fins. Esses estudos são difíceis de serem realizados pois são poucos os países em que a maconha ou seus derivados estão legalizados e há pouco controle sobre a qualidade dos produtos.

Ainda assim, diversas pessoas já estão em uso do CBD e a maioria delas reagem bem seu ao uso, como é o caso das pessoas tratadas pela da Dra. Shadia Sharaf, que “reagem muito bem e percebem efeitos já na primeira semana de uso”, ainda que seja necessário ajustar a dose e horário nas primeiras semanas do tratamento.

Durante o transtorno de ansiedade a transmissão (“conversa” entre regiões do cérebro e entre o cérebro e o resto do corpo) mediada pela serotonina parece estar diminuída e existem regiões do cérebro, principalmente as áreas relacionadas à detecção de perigo, que ficam muito estimuladas. O CBD pode ser benéfico para esses dois desencadeamentos, pois age facilitando a transmissão serotoninérgica, ativando receptores de serotonina do tipo 5HT1, além de “estimular o principal neurotransmissor inibitório do SNC, conhecido como GABA, que diminui a conversa entre os neurônios”, é o que explica a Dra. Shadia Sharaf.    

Portanto, ainda que haja necessidades de estudos científicos maiores, o uso do CBD e de outros canabinóides pode ser uma boa opção para você que está lutando por uma vida menos ansiosa, com baixo risco envolvido e efeitos positivos que podem ser observados rapidamente. Mas é importante lembrar que cada pessoa é única e pode responder de forma diferente ao tratamento com CBD, então é fundamental utilizar o CBD sob a supervisão de uma equipe médica qualificada, de forma segura e procurando produtos de qualidade.

Cuidados ao tomar CBD
Segundo a Dra. Shadia Sharaf, o CBD é considerado muito seguro e com poucos efeitos colaterais. A sonolência é um dos principais efeitos do CBD e ela pode ser considerada um efeito terapêutico ou colateral dependendo de cada caso.

Mas atenção, o CBD pode alterar a concentração sanguínea de alguns medicamentos. Então se você faz uso de outros medicamentos, consulte a equipe médica que já te atende para saber se será necessário ajustar a dose.

Outro cuidado muito importante que você deve ter é em relação à qualidade do produto que você está consumindo. Existem óleos com diferentes dosagens de CBD e outros canabinóides (como o THC), nem sempre a dose relatada é a dose encontrada nesses produtos, por isso procure sempre fontes confiáveis.

Redação
Adriana Sumi (farmacêutica). 21.03.2023.

Fontes e Referências
– Entrevista realizada em março de 2023 pelo Criasaude.com.br com Dra. Shadia Fouad Sharaf El Din (CRM-SP 185580), médica generalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande – FURG, especialista em Neurociências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), pós-graduada em Medicina do Estilo de Vida pelo Hospital Israelita Albert Einstein, que atualmente pesquisa o efeito do óleo de cannabis provenientes de associações terapêuticas em pessoas que convivem com dor crônica no programa interdisciplinar em ciências da saúde de mestrado Unifesp.
Estudos:
– Estudo científico: Crippa JAS, Zuardi AW, Guimarães FS, et. All. Efficacy and Safety of Cannabidiol Plus Standard Care vs Standard Care Alone for the Treatment os Emotional Exhaustion and Burnout Among Frontline Health Care Workers During the COVID-19 Pandemic: A Randomized Clinical Trial. JAMA Netw Open, edição de agosto de 2021, páginas 2;4(8). doi: 10.1001/jamanetworkopen.2021.20603.
– Estudo científico: Bonaccorso S, Ricciardi A, Zangani C, Chiappini S, Schifano F. Cannabidiol (CBD) use in psychiatric disorders: A systematic review. Neurotoxicology. Edição de setembro de 2019, páginas 74:282-298. doi: 10.1016/j.neuro.2019.08.002.
– Estudo científico: Spinella TC, Stewart SH, Naugler J, Yakovenko I, Barrett SP. Evaluating cannabidiol (CBD) expectancy effects on acute stress and anxiety in healthy adults: a randomized crossover study. Psychopharmacology (Berl). Edição de Julho de 2021; 238(7):1965-1977. doi: 10.1007/s00213-021-05823-w.
– Estudo científico: Crippa JA, Derenusson GN, Ferrari TB, et. all. Neural basis of anxiolytic effects of cannabidiol (CBD) in generalized social anxiety disorder: a preliminary report. J Psychopharmacol. Edição de janeiro de 2011 ;25(1):121-30. doi: 10.1177/0269881110379283.

Magnésio pode ajudar a ter uma boa noite de sono?

Quem nunca ficou rolando na cama sem conseguir dormir? Demorar a para pegar no sono ou acordar no meio da noite, têm sido cada vez mais comum e a busca pela tão sonhada boa noite sono uma saga. Nesta busca, o magnésio tem ganhado destaque como um dos mais recentes suplementos utilizados para esse fim, mas será que realmente tem efeito de melhorar a qualidade do sono?

O que é magnésio?

O magnésio é um nutriente (um mineral) que está envolvido em várias funções corporais importantes. Ele desempenha um papel na função muscular e nervosa, está envolvido na regulação da pressão sanguínea e do açúcar no sangue e até ajuda a construir ossos e DNA. O magnésio é o quarto mineral mais abundante no corpo humano, depois do cálcio, potássio e sódio.

O magnésio pode ajudar você a ter uma boa noite de sono?

O magnésio é necessário para a produção de neurotransmissores importantes para dormir bem. Os neurotransmissores são substâncias químicas que transmitem mensagens entre as células nervosas do cérebro e do corpo. Ele também interage com alguns receptores de neurotransmissores:  bloqueia o receptor N-metil-d-aspartato (NMDA) e é um agonista do receptor do ácido γ-aminobutírico (GABA). A ativação aumentada do receptor NMDA pode causar uma arquitetura de sono ruim, enquanto o aumento do receptor GABA pode melhorar a arquitetura do sono. Então para pessoas que apresentam uma deficiência de magnésio não é surpreendente que desenvolvam distúrbios do sono e nestes casos a suplementação com magnésio é comprovadamente eficaz1. Nos Estados Unidos, a dose diária recomendada de magnésio para adultos na forma de suplementos dietéticos é de 400 a 420 mg por dia para homens e 310 a 320 mg por dia para mulheres2.

Já em relação à população em geral, os estudos científicos são controversos, alguns estudos demonstraram eficácia para melhorar a qualidade do sono enquanto outros concluem que não há efeito, portanto para uma conclusão científica ainda são necessários estudos maiores3.

Mas para quem está na saga da tão sonhada boa noite de sono, a suplementação de magnésio pode ser uma possibilidade a se tentar, sempre com acompanhamento de profissionais de saúde especializados (médico/as especialistas em sono e nutricionistas) e em conjunto com outras medidas que auxiliam o sono, como fazer atividade física, diminuir o uso de telas de noite, uma alimentação balanceada, entre outros. Suplementos de magnésio em geral são seguros, mas podem interferir com alguns medicamentos e devem ser utilizados com precaução em pessoas com problemas no coração.

Qual o melhor magnésio para dormir?

Existem vários tipos de suplementos de magnésio, mas segundo a Cleveland Clinic4, os suplementos para serem testados em casos de distúrbios do sono são:
– Glicinato de magnésio (200 mg – tomar uma vez por dia, à noite, cerca de 45 minutos antes de dormir).
– Citrato de magnésio (200mg – tomar uma vez por dia, à noite, cerca de 45 minutos antes de dormir).
O óxido de magnésio é provavelmente muito menos útil para sua insônia. No mercado, especialmente no Brasil, existem muitos suplementos de magnésio à base de sal de óxido de magnésio.

Para os distúrbios do sono, é aconselhável que um adulto tome um comprimido de magnésio (200 mg ou mesmo 300 mg) antes de dormir, se possível com um comprimido de cálcio de 300 mg, cerca de 45 minutos antes de se deitar.

23.02.2023. Por Adriana Sumi (farmacêutica). Supervisão final: Xavier Gruffat (farmacêutico).

Saiba mais dicas para lidar com a insônia em: Insônia e 10 dicas para mandar a insônia para longe

Medicamentos contra a obesidade (como semaglutida): entrevista com uma especialista

SÃO PAULO – Os agonistas do receptor GLP-1, como a semaglutida (Ozempic®, Rybelsus®, Wegovy®) e a liraglutida (Victoza®, Saxenda®) permitiram enormes avanços nos tratamentos contra o sobrepeso e a obesidade. No Brasil, o Wegovy® acaba de ser aprovado pela ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária, aprovada em 2 de janeiro de 2023) para o uso no controle de peso e apesar desta molécula já estar disponível em outros formatos, especialistas como o médico endocrinologista Dr. Paulo Miranda, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), considera que esta aprovação é um marco importante no tratamento contra a obesidade.

O Wegovy® é o nome comercial da simaglutida 2,4 mg, uma injeção subcutânea de dose semanal, que demonstrou ter uma maior potência na redução de peso de forma sustentada em combinação com uma dieta balanceada, atividade física e acompanhamento multidisciplinar1.

Mas afinal, qual a diferença do Wegovy® em relação aos outros medicamentos agonistas do receptor GLP-1? O Criasaude realizou uma entrevista com a Dra. Jacqueline Rizzolli, CRM 19507, que é endocrinologista do Centro de Obesidade e Síndrome Metabólica do Hospital São Lucas da PUCRS e membra da diretoria da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO), e fez um compilado dos principais estudos sobre o assunto para ajudar a responder essa pergunta.

Como agem os agonistas do receptor de GLP-1?
Tanto a simaglutida quanto a liraglutida são moléculas sintéticas que agem em nosso organismo imitando a ação do GLP-1 (glucagon-like-peptide-1), que é produzido naturalmente em nosso organismo. Elas se ligam aos receptores de GLP-1 levando a uma diminuição da produção de glicose no fígado, um aumento da produção de insulina, uma diminuição dos movimentos peristálticos do intestino, um retardo no esvaziamento do estômago e a uma redução da sensação de apetite.
Segundo a Dra. Jacqueline Rizzoli cerca de 85% das pessoas que utilizam estas medicações para a redução do peso respondem bem ao tratamento, mas salienta que “a redução de peso depende do controle da alimentação, atividade física e do uso correto do medicamento, sempre com acompanhamento médico”.

Diferença entre as semaglutidas – Wegovy®, Omzempic® e Rybelsus®?
A grande diferença do Wegovy® para as outras simaglutidas é que este medicamento tem indicação específica para tratar sobrepeso e obesidade com estudos que comprovam sua maior eficácia para esse tipo de tratamento, já às outras semaglutidas tem indicação para tratar diabetes tipo 2, embora já venham sendo usadas para esse fim mesmo sem a indicação na bula, uso off label.
O Wegovy® é de aplicação subcutânea, o que melhora sua absorção em relação ao Rybelsus®, que é um comprimido por via oral. Já em relação ao Ozempic®, que também é uma injeção subcutânea semanal, o Wegovy® pode alcançar uma dosagem maior, levando a um maior efeito na perda de peso.

Qual a diferença entre a semaglutida e a liraglutida?
Uma das principais diferenças entre o uso da semaglutida e a liraglutida é a frequência de aplicação. A aplicação da liraglutida é diária, já o da semaglutida é semanal, o que leva há uma diferença considerável no número de picadas que a pessoa precisa levar ao longo de um tratamento de 6 meses há 1 ano. Um estudo publicado em janeiro de 2022 no JAMA, comparou o uso da semaglutida 2,4mg por semana com o uso da liraglutida 3,0 mg por dia, ambas associadas a uma alimentação balanceada e atividade física. A semaglutida levou a uma maior perda de peso.2.

Preocupações e recomendações

De acordo com a Dra. Jacqueline Rizzoli estes medicamentos são contraindicados para pessoas que já tiveram pancreatite ou possuem histórico de câncer medular. Os efeitos colaterais mais comuns são náuseas, que ocorrem em cerca de 30% dos pacientes. Os efeitos colaterais costumam ser leves e transitórios, o ajuste da dose do medicamento é feito gradativamente para amenizar estes efeitos colaterais.

Estima-se que o Wegovy® chegue ao mercado Brasileiro entre março e abril de 2023 e “apesar de ser uma medicação com maior efeito na perda de peso (cerca de 17% do peso corporal, por exemplo uma pessoa de 100kg pode reduzir 15-20kg usando esta medicação no decorrer de 6-12 meses), o custo desta medicação é ainda mais alto do que as que já estão no mercado, o que limita sua utilização para a população em geral e não é coberto pelo SUS”, é o que considera a Dra. Jacqueline Rizzoli.

Uso sempre em associação com uma mudança no estilo de vida, com uma alimentação balanceada, atividade física e acompanhamento médico.

Fontes & Referências:
– Entrevista realizada em janeiro de 2023 pelo Criasaude.com.br com a Dra.Jacqueline Rizzolli, CRM 19507, Endocrinologista do Centro de Obesidade e Síndrome Metabólica do Hospital São Lucas da PUCRS e membra da diretoria da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO).
– Artigo científico: Wulding, J.P.H.; Batterham, R.L.; et.al.; Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity, N Engl J Med, março de 2021, páginas 384:989-1002, DOI: 10.1056/NEJMoa2032183.
– Artigo científico: Rubino, D.M.; Greenway, F.L.; et al. Effect of Weekly Subcutaneous Semaglutide vs Daily Liraglutide on Body Weight in Adults With Overweight or Obesity Without Diabetes.The STEP 8 Randomized Clinical Trial. JAMA. 2022;327(2):138-150. doi:10.1001/jama.2021.23619.
– Para as bulas e histórico de aprovação da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária): https://consultas.anvisa.gov.br.

Redação:
Adriana Sumi (farmacêutica)

Data da primeira publicação:
17.01.2023

EUA: tratamentos de obesidade recomendados para crianças obesas com 12 anos ou mais

Tratamentos de obesidade como orlistate e especialmente semaglutide são agora claramente recomendados para crianças obesas com 12 anos ou mais, de acordo com as últimas diretrizes da principal sociedade pediátrica americana, a American Academy of Pediatrics (AAP). Esses medicamentos devem ser prescritos em conjunto com mudanças de estilo de vida e terapias comportamentais. Essas recomendações, divulgadas em 9 de janeiro de 2023, são as primeiras a aconselhar claramente o uso de medicamentos em crianças obesas de 12 anos ou mais.

Obesidade: 1 em cada 5 crianças

Cerca de uma em cada cinco crianças nos Estados Unidos é obesa, de acordo com os números dos Centers for Disease Control and Prevention (CDC) dos Estados Unidos citados pelo Wall Street Journal em 9 de janeiro de 2023. A AAP informa que 14 milhões de crianças e adolescentes americanos são obesos. A doença está associada a sérios problemas de saúde a curto e longo prazo, incluindo doenças cardiovasculares e diabetes. A determinação da obesidade em uma criança ou adolescente é feita medindo o IMC, mas ao contrário dos adultos, é comparada a outras crianças ou adolescentes do mesmo sexo e faixa etária.

Medicamentos

A associação AAP menciona medicamentos ou moléculas que podem ser usadas para tratar a obesidade em crianças de 12 anos ou mais. Entre elas, orlistate, que bloqueia a absorção de gordura, e sobretudo de semaglutide (Ozempic® ou Wegovy®), que atua como um supressor de apetite. Ambos os medicamentos são aprovados pela FDA nos Estados Unidos para tratar a obesidade em pessoas de 12 anos ou mais. A metformina, um conhecido medicamento para diabetes do tipo 2, também aparece na lista. No entanto, não é oficialmente aprovado para a obesidade, mas é frequentemente usado fora do rótulo (off-label) para tratar a obesidade em crianças ou adolescentes.

Semaglutide

Semaglutide, que pertence aos agonistas da GLP-1, é um medicamento muito eficaz que atua tanto sobre diabetes quanto sobre a perda de peso. Nos adultos, o semaglutido é prescrito com tanto sucesso que vários países têm uma escassez desse medicamento tomado como injeção, Wegovy®. É especificamente indicado para a obesidade e não apenas para a diabetes, como o são Ozempic® (também injeção) e Rybelsus® (comprimido). Semaglutide e outros agonistas das GLP-1 (por exemplo, liraglutide) imitam o sentimento natural de saciedade e também atuam como supressores de apetite. Em um estudo com adultos, o Wegovy® (semaglutide) resultou em uma perda de peso média de 15% quando combinado com conselhos sobre estilo de vida, em comparação com uma perda de 2,5% para placebo e conselhos1. Os efeitos colaterais mais comuns possíveis do semaglutido são distúrbios gastrointestinais como náuseas, vômitos, diarréia, dor abdominal e constipação.

Cirurgia bariátrica

Essas diretrizes da AAP, a maior associação pediátrica dos Estados Unidos, também recomendam que os pediatras encaminhem crianças de 13 anos ou mais com obesidade grave a cirurgiões que realizam cirurgia bariátrica para avaliação.

Tratar sem esperar

A idéia com essas novas recomendações é tratar a obesidade infantil o mais rápido possível, sem esperar. Há mais evidências do que nunca de que o tratamento da obesidade infantil é seguro e eficaz, de acordo com o AAP.

Crédito fotográfico: Adobe Stock

9 de janeiro de 2023. Por Xavier Gruffat (farmacêutico). Fontes: The Wall Street Journal, American Academy of Pediatrics (AAP). Estudo: doi :10.1542/peds.2022-060641.

Dores na articulação, quando devo procurar atendimento médico? Entrevista com um ortopedista

SÃO PAULO – A dor é a maneira do seu corpo dizer que algo está errado. Mas nem sempre diz exatamente o que está errado e se você precisa de tratamento médico. Quando a dor se desenvolve nas articulações como você sabe se deve tratá-la em casa ou consultar um médico?

Nós do Criasaude.com.br conversamos com o Dr. Gabriel Paris (CRM/SP191523 – Instagram), médico cirurgião ortopedista pela Universidade Federal de São Paulo, que explica quando devemos procurar atendimento médico em casos de dores nas articulações e os cuidados em casos de dores agudas ou crônicas.

Quando devo procurar atendimento médico?
Podemos diferenciar, de forma geral, dois tipos de dores: dores agudas e dores crônicas.
A dor aguda é decorrente de um trauma, entorse, pancada ou contusão. Nestes casos há necessidade de procurar atendimento médico quando houver uma debilidade ou uma incapacidade funcional daquela articulação e o atendimento indicado é o pronto-socorro.
Já a dor crônica não tem uma forma causal direta relacionada a um trauma e o recomendado, geralmente, é esperar de 6 a 8 semana e buscar ajuda médica caso não tenha modificação na condição da dor, ou seja, se a dor não mudar de local, não melhorar nada ou piorar após essas semanas procure um atendimento médico especializado com ortopedista para realizar uma avaliação dos motivos dessa dor. Mas caso haja sinais de uma inflamação aguda (inchaço, vermelhidão, aumento de temperatura ou surgimento de secreções na articulação) sem que tenha havido um trauma, adiante a consulta com ortopedista.

Compressas geladas ou quentes?
As compressas geladas ou quentes são utilizadas para patologias diferentes.
As compressas geladas são indicadas para situações decorrentes de traumas (pancadas, entorses, contusões), caso você tenha sofrido algum acidente, batido em algum lugar ou torcido. Outro uso muito comum da compressa gelada é em casos agudos de distensão muscular, quando por exemplo você está praticando algum esporte e sente uma dor forte na parte posterior da coxa, na panturrilha, entre outros.
Já as compressas quentes são recomendadas para as dores crônicas que não tenham origem de sobrecarga, como em caso de contraturas musculares na fase crônica e dores articulares crônicas (ex.: dor lombar, dor cervical, dor de tendinites, entre outros

Posso massagear?
Depende, se a dor for decorrente de uma pancada ou um trauma a massagem não é uma das coisas mais indicadas, pois nosso corpo começa a formar hematoma e um processo inflamatório na região como um mecanismo de proteção e cura, mas com a massagem a área do hematoma e da inflamação podem aumentar. Então nas pancadas, nos traumas e nas contusões, melhor não massagear a parte dolorida. Depois de 2 ou 3 semanas, é possível massagear as regiões que ficaram ainda doloridas. As dores crônicas no geral são podem ser massageadas, fazer liberação miofascial ou manipulação articular.

Quando imobilizar as articulações?

As articulações do corpo humano têm movimento e quando restringimos o movimento pode acabar levando a um quadro chamado artrofibrose, uma cicatriz na articulação por não mexer. Então as articulações são feitas para serem mexidas, a restrição de movimento de algumas delas são feitas geralmente quando se precisa de uma estabilidade absoluta, como por exemplo em fraturas, que o osso precisa colar e para isso precisa de estabilidade óssea. Para outros problemas articulares, como por exemplo a tendinite e bursite, que são as causas mais comuns de dor nas articulações, a imobilização geralmente não é recomendada.

Última atualização:
04.08.2022

Fontes
Entrevista realizada pelo Criasaude.com.br com o médico cirurgião ortopedista Dr.Gabriel Paris (CRM/SP 191523), graduado, residência em ortopedia e especialização em cirurgia ombro e cotovelo pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo. Foto: Adobe Stock.

Redação
Adriana Sumi (farmacêutica)